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Maçonaria e espiritismo na política.


A Maçonaria nasce do coletivo e destina-se à "Pólis", a comunidade. Mas como conciliar essa missão com o cenário atual, onde a política se tornou um "lugar do medo"?

Muitas vezes, nos refugiamos no individualismo do "vou fazer a minha parte", mas seria isso suficiente?

Proponho um mergulho profundo para diferenciar "A Política" (a disputa partidária) de "O Político" (o sentido maior de comunidade).

Exploro aqui, como a vocação maçônica nos chama a superar o medo e o isolamento. O desafio é claro: como podemos, de fato, espiritualizar o movimento político e politizar o movimento maçônico, unindo o social e o espiritual?



I. O Ponto de Partida: A Natureza Coletiva e Política da Maçonaria


A Maçonaria nasce de um coletivo e a um coletivo se destina. Se está claro o que a sublime Ordem faz aqui, de onde vem e para onde vai, clara também deve ser a consequência lógica do seu programa Político em potencialidade.

Esse potencial se traduz em potência quando o programa Político propagado pelos espíritos se encontra com a prática Política realizada pelos espíritas. A Política, aqui, é entendida em seu sentido maior: como o grande ofício de agregar os cidadãos em torno do bem comum da "Pólis".

Seguindo os antigos, como desejava Aristóteles em sua Ética à Nicômaco, é a "perícia" capaz de projetar "a partir de princípios fundamentais" o "bem supremo".


A Importante Distinção: "O Político" vs. "A Política"

Seguindo os contemporâneos, encontramos esse ideal no Professor Pierre Rosanvallon. Em seu livro: “Por uma histórica conceitual do Político”, ele faz uma distinção crucial:

> O campo do Político: Seria o dos "múltiplos elos da vida dos homens e mulheres", o do "sentido" de sociedade aos seus partícipes, que faz um agrupamento "que não passa de uma mera população tornar-se uma verdadeira comunidade".

> O campo da Política: Englobaria a arena das "competições partidárias pelo exercício do poder, da ação governamental cotidiana e da vida ordinária das instituições" (ROSANVALLON, 2010, p. 72-73).


Em outras palavras, O que significa: "O Político" não é uma coisa só. É a soma de todas as coisas que nos conectam: a língua que falamos, a história que aprendemos, a cultura que partilhamos (música, comida, tradições), os valores morais, a religião, o território que habitamos e até os inimigos ou desafios que enfrentamos juntos. 

Quando se refere no trecho: “...é o do "sentido" de sociedade aos seus partícipes…”, significa o propósito de estarmos juntos. Não estamos juntos apenas por acaso. Estamos juntos porque partilhamos um ideal de justiça, um propósito histórico, uma identidade. É o que faz um indivíduo sentir que sua vida pessoal está ligada à vida de todos os outros.

No trecho onde diz: "mera população" tornar-se "uma verdadeira comunidade", a "verdadeira comunidade" é quando essa população ganha "sentido". As pessoas começam a se ver como parte de um todo. Elas se importam umas com as outras e sentem que têm uma responsabilidade mútua. Elas têm uma identidade compartilhada.

Assim concebido, podemos nos entender tanto no campo do Político (onde se situam as visões e representações que criamos de nós mesmos) quanto no campo da Política (onde se situam as nossas ações na arena pública e institucional). Os desafios não são poucos.



II. O Desafio: Superando o Individualismo e o Medo da Política.


Enfrentamos o grande desafio de superar tanto o individualismo quanto o medo da Política.

O individualismo se manifesta em posicionamentos comuns, como: "O importante é cada um fazer a sua parte", "Se cada um se conscientizar da sua obrigação, as coisas vão pra frente", ou "É tudo uma questão de mudança individual!".

Eis algumas "visões", no campo do Político, que não colaboram quando somos chamados do individual ao social. A questão central é que tal posicionamento falha ao não propor uma reflexão mais ampla sobre o nosso ser "com" o outro. Essa mentalidade desconsidera o fortalecimento da construção coletiva e transindividual da nossa narrativa de evolução, demandando um equilíbrio entre o encontro conosco e os encontros com o nosso "outro" das ruas e praças. Isso, por sua vez, demanda uma competência Política.


Contudo, como não temer se a própria Política se tornou o "lugar do medo"?

Apesar do ideal de que "a força do bem é o maior poder", é bem verdade que, nas atuais comunidades, o campo da Política não tem sido um terreno sadio. Pelo poder que oferece, o mandato institucional é de tal forma contagiante e inebriante que sujeita aqueles que nele se embrenham a armadilhas sutis, poderosas e onerosas. Muitos não conseguem explicar a real motivação que os levou ao pantanoso terreno e, na melhor das hipóteses, não escapam de um cruel estigma.


Eis o lugar do medo. Contudo, é mais sábio e terapêutico lidarmos com os nossos medos do que sermos destruídos por eles. Eis o lugar da coragem no bem.

Dessa forma, visualizando a Política como instrumento de coletividade e geradora de benefícios para o todo, há de se perguntar: De que forma ampliar a participação do maçom na sociedade?

Um caminho pode ser o de trabalhar para um entendimento mais adequado das conexões entre maçonaria e política, por meio de debates e reflexões. Ou seja, trabalhar para, cada vez mais, elevarmos a politização do movimento maçônico e a espiritualização do movimento político.



III. A Síntese Necessária: O Encontro do Social com o Espiritual


Quando se pensa em desafios, lembramos Humberto de Campos, na obra Boa Nova, quando fala da convocação do Mestre aos "500 da Galileia", atribuindo-lhes a tarefa de reencarnarem através dos milênios, disseminando a prática do Evangelho com o exemplo. E a Política pode ser eleita para sentir, em sua medula, o sopro renovador da esperança.


Os Riscos da Dissociação:

Sabemos que o individual sem o espiritual é porta larga ao individualismo e ao egoísmo. Por outro lado, a mobilização social dissociada da espiritualidade pode ser o retorno da multidão fragmentária sob perversa retórica social.

Disso nos relembra a filósofa Hannah Arendt, em Origens do Totalitarismo, onde "os movimentos totalitários são organizações maciças de indivíduos atomizados e isolados". Assim também surgem os "estados de exceção" denunciados por Giorgio Agamben.


Nesse sentido, ser maçom é se posicionar contra tudo isso, cumprindo nossa missão no mundo: Instruir aqueles que buscam a Luz e ajudá-los a avançar, melhorando suas instituições por meios diretos e materiais.

A Missão do Maçom na Prática

Um excelente começo é unir-se às instituições e aos indivíduos que já desenvolvem essa missão. Entre outras, três iniciativas podem colaborar muito:

 * Assumir ações de intervenção social;

 * Assumir posições em instâncias de intervenção social;

 * Assumir formações para a intervenção social.

Em todas essas iniciativas, é imprescindível unir individualidade, sociabilidade e espiritualidade.


Há muitos maçons que já atuam bravamente em atividades de grande impacto social: em conselhos, hospitais, asilos, abrigos; em campanhas e em diversas instituições de emancipação social, artística, científica, política e religiosa. São pessoas que, no desafiador encontro com o outro, encontram-se consigo mesmas.


O Diálogo como Caminho

Com sua crítica científica, filosófica e religiosa, o movimento maçônico torna-se, então, um grande "Movimento Social". Como tal, deve dialogar com os demais movimentos, partilhando dúvidas e críticas, crescendo com eles e emancipando-se.

Furtar-se a tal política por receio de fanatismos e extremismos não é um meio de resolver os nossos problemas, mas de aprofundá-los. O filósofo Michael Sandel, em Justiça: o que é fazer a coisa certa, também compreende essa importância. Ele demonstra que "o desafio é imaginar uma política que leve a sério as questões morais e espirituais", aplicando-as também a interesses econômicos e cívicos.

Para Sandel, em vez de evitar as convicções morais e religiosas, "deveríamos nos dedicar a elas mais diretamente – às vezes desafiando-as e contestando-as, às vezes ouvindo-as e aprendendo com elas". O isolamento religioso, como o isolamento social, conduz ao egoísmo.


É uma grande exigência. Porém, sabemos que muito será exigido daqueles que "muito recebeu".


Finalmente, não nos enganemos, o mundo tem e teve excelentes exemplos de políticos. Para muitos, o maior deles foi o que, decisivamente, transformou a paisagem terrena, espiritualizando as relações sociais, a política, o mundo. Antecipando em dois mil anos o nosso próprio futuro: se libertar do próprio ódio e se encontrar com o próprio Amor.

"Um dia todos abrirão os olhos"...


Referência:

Revista A Senda, Espírito Santo, Gráfica JEP, maio-junho 2017.


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