
Esse texto, do livro “Lázaro Redivivo”, psicografado por Chico Xavier, narra a ascensão e queda de Esparta sob a égide do autoritarismo, do militarismo extremo e da supressão do pensamento, ecoando advertências profundamente alinhadas com os princípios da Maçonaria. A instituição maçônica valoriza a liberdade, a razão, a justiça e o progresso moral e intelectual da humanidade, tudo aquilo que Esparta rejeitou em sua busca pela supremacia. Ao priorizar a força sobre o saber, o isolamento sobre a fraternidade e a obediência cega sobre a consciência livre, Esparta encarnou o oposto do ideal maçônico. O texto mostra que a glória construída sobre o despotismo e o orgulho é efêmera e que, mais cedo ou mais tarde, a razão e a dignidade humana se reerguem, mesmo entre escombros. Essa reflexão carrega um simbolismo caro à Maçonaria: a construção de um templo interior sobre fundamentos sólidos de virtude, luz e sabedoria, jamais sobre os alicerces frágeis do poder opressor. A história espartana torna-se uma alegoria do que a Maçonaria combate e do que ela procura edificar. Eis o texto:
Assim passa.
À beira do Eurotas, a república de Esparta sentia a extensão de sua grandeza. Licurgo, o legislador, visitara as organizações do Egito e da Índia e se assenhoreara de seus gloriosos conhecimentos. Subtraindo, porém, a cultura alheia, não se deteve no campo da sabedoria. Patriota orgulhoso, transformou-a na base do seu castelo de tirania.
Em breve, os espartanos recebiam determinações de vaidoso isolacionismo, com a máscara da legalidade. Instaurou-se o socialismo nacional, com o menosprezo de todos os valores humanos. O país foi dividido em lotes de terra iguais entre si; criou-se um senado que endossasse o absolutismo do poder; instituiu-se rigorosa disciplina civil e militar; obrigou-se o povo às refeições comuns e estabeleceu-se a compulsoriedade dos costumes.
A política da república fundou a religião da raça e da força. Os recém-nascidos, portadores de qualquer imperfeição física, eram sumariamente eliminados. Esparta não se interessava por questões de dignidade humana. Não lhe importavam a fonte do amor nem o tesouro da ciência. Relegava-se a cultura do espírito a plano secundário. Exigiam-se guerreiros que dobrassem o mundo aos seus pés. Estenderia sua constituição aristocrática a outros povos, aniquilaria filósofos e artistas. Era proibido pensar — para obedecer.
E em breve, com armaduras vitoriosas e cintilantes, os espartanos venciam os messênios em duas guerras longas e dolorosas. Nobres cavaleiros e sábios patriarcas foram reduzidos a hilotas, em miserável e angustioso cativeiro. Homens honestos e cultos foram submetidos à semicomiseração. Os amigos da humanidade eram atirados ao desprezo e à morte.
Os descendentes dos dórios, centralizando consideráveis possibilidades pela sua política de supremacia e dominação, rasgaram estradas suntuosas e construíram palácios soberbos. Ante a impulsividade de seus exércitos, todo o Peloponeso caía sob sua poderosa influência. Atenas, que amava a ciência, a cultura, as artes e o trabalho pacífico, foi compelida à submissão, passando a obedecer ao ignóbil conselho dos Trinta Tiranos, imposto pela vitória de Lisandro.
Aparentemente, a força espartana derrotara o direito ateniense. O punho bélico esmagava a razão. Categorizados como mendigos, os velhos mestres da inteligência viam as paradas militares brilhando ao sol e ouviam trompas guerreiras conclamando ao domínio de sua terra.
Lares impolutos suportavam o nojento assédio de conquistadores sem escrúpulo e, de quando em quando, no intervalo mais longo das batalhas, punhados de bravos morriam pela liberdade, prestando-lhe culto fiel até o sangue.
Toda a Hélade tremia sob as patas dos cavalos e, no admirável santuário dos deuses, arrastava-se o fantasma da perseguição e da morte.
Esparta realizara seu ideal de brutalidade e racismo. Mas, contra sua orientação despótica, reúnem-se as energias construtivas. E, como a defensiva sabe fundir a espada na forja do direito, surge a resistência organizada por toda parte.
A prepotência espartana semeara ódio e rivalidade, ruína e vingança — e não só os atenienses desfazem o jugo indevido: outras cidades disputam-lhe a hegemonia. Tebas arrebata-lhe o cetro do poder.
Em vão o povo ambicioso e autocrata de Licurgo tenta arregimentar as forças que lhe restam. A paixão militarista convertera a cidade em ninho belicoso de águias homicidas. Escasseavam os lares e sobravam quartéis. As leis se constituíam em sentenças absolutas. Rareavam cidadãos, porque Esparta queria soldados para conquistas sem fim.
Depois da dominação, as ruínas do cativeiro. Seus generais haviam erguido montanhas admiráveis de força, colossos de pedra e milagres de disciplina. Entretanto, a grandeza que parecia invulnerável passou como um sonho.
Vencidos por Epaminondas, os espartanos observaram a reconstituição de Messênia, Mantineia e Megalópolis, que lhes haviam assistido ao ruidoso triunfo.
E, no curso do tempo, não restavam de seu império magnificente senão detestáveis recordações nas ruínas da Acaia. Entre colunas quebradas e capitéis ao abandono, as serpentes fizeram seu ninho, e aves agoureiras vieram piar a desolação da ventania e da noite.
Observando as imponentes ruínas das grandes cidades europeias, que os fazedores de guerra lançaram à destruição, treme nossa alma, recordando que o exemplo de Esparta antecedeu a Jesus Cristo.
Os novos Licurgos idealizaram os Estados Moloques, devoradores dos direitos humanos e dos princípios mais belos da vida. Erigiram novas Babilônias, absorventes e tirânicas, onde a alma é sempre um zero à esquerda do despotismo do poder.
Mas, como acontece há muitos séculos, a morte espreita os castelos da ambição e da vaidade. Quando suas torres desafiam o céu, ela convoca as energias da razão e converte a soberba em miséria e a suntuosidade em destroços.
Assim passa a efêmera glória da opressão e da tirania.
Depois da carnificina das águias criminosas, restam no campo apenas detritos e despojos, que a piedade vem remover, a fim de que o homem siga seu caminho na construção do mundo melhor.
Referência:
XAVIER, Francisco Cândido. Lázaro redivivo. Pelo Espírito Irmão X. 6. ed. Rio de Janeiro: FEB, 1978.
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