O PROBLEMA DO CONHECIMENTO
Já vimos que Kant havia descoberto o vazio das oposições filosóficas, notando que faltava, às doutrinas opostas, um verdadeiro conteúdo. Todas elas, por assim dizer, lutavam no vácuo. O Racionalismo, por exemplo, tornara-se tão dogmático quanto a Escolástica: a partir da suposta realidade do pensamento, reconstruíra toda a Metafísica, sem primeiro provar aquela realidade, estudar sua natureza e examinar o problema de suas relações com o mundo das coisas. O Empirismo, por sua vez, voltara às teorias protagóricas do conhecimento, pondo toda a sua ênfase no problema das relações entre o pensamento e as coisas, mas não conseguira estabelecer a validade das coisas. Assim, estabelecera também uma forma de dogmatismo, que alcançara sua expressão acabada no extremado mentalismo de Berkeley, para afinal encontrar o beco sem saída do agnosticismo de Hume. Tudo isso porque ambos não tinham conteúdo. Partiam de suposições e não de verificações. Kant se propõe a descobrir a maneira de encher o continente vazio do Empirismo, e é por isso que meditará e escreverá a sua Crítica da Razão Pura.
Leibniz havia percebido esse problema, quando fez a advertência socrática, que supõe inevitavelmente um sorriso nos lábios: “menos o intelecto”. Sim, pois nada existe no intelecto sem que tenha passado pelos sentidos, como queria Locke, mas é evidente que, para isso, existia o intelecto. A proposição de Locke e a advertência de Leibniz são o golpe de florete e o seu contragolpe, no duelo entre o Empirismo e o Racionalismo.
Kant vai ser o juiz desse duelo, e começa por avisar que, para as sensações se harmonizarem e se organizarem no intelecto, este deve possuir alguma coisa. Não será, por certo, a simples tabula rasa do Empirismo, nem a misteriosa substância pensante do Cartesianismo. O que será, então? Para Kant, é a consciência, ou seja, o plano interior em que se processa a relação da experiência, a relação do sujeito com o objeto do conhecimento. Eis, pois, as duas formas vazias, do Racionalismo e do Empirismo. De um lado, a consciência; de outro, a experiência.
É na forma da consciência que a matéria das sensações vai ser organizada e, por assim dizer, fundida. Mas essa forma geral contém, no seu interior, as formas diversas da experiência. E as duas formas primárias da experiência são as categorias de espaço e tempo, ou seja, as intuições de espaço e tempo. Nessas formas, toda a experiência é modelada. As sensações se acomodam nessas categorias e adquirem a unidade e a estabilidade necessárias para que se realize o processo do conhecimento, de maneira semelhante à da água que se acomoda nos recipientes. Espaço e tempo não são, pois, fatos exteriores, mas formas a priori do pensamento, pelas quais a consciência modela a realidade exterior, graças às sensações.
A forma da consciência não é apenas receptiva, mas também ativa, uma vez que constrói a realidade com os dados dos sentidos. Assim, o espírito imagina o mundo exterior, ou seja, elabora uma imagem desse mundo com as sensações que dele recebe, mas servindo-se de suas próprias categorias, de suas formas receptivas. Entretanto, não existe o problema do extremo subjetivismo, que levaria ao solipsismo, pois as formas da consciência não são individuais, mas comuns aos seres pensantes.
Realmente, a consciência se manifesta por duas maneiras diversas. A primeira é a da reflexão subjetiva, através da qual cada indivíduo se identifica a si mesmo, diferenciando-se dos outros. A segunda é a reflexão profunda, pela qual os seres pensantes se identificam como tal e se comunicam entre si. Esta maneira é a que Kant chama de consciência normal, ou seja, normativa, pois contém a lei geral ou a norma universal dos juízos. É nessa maneira da consciência que temos a visão ou intuição do espaço e do tempo.
Essas duas maneiras da consciência correspondem também a duas maneiras de relações entre sujeito e objeto, ou seja, a duas espécies de juízos: os analíticos e os sintéticos. Os juízos analíticos são aqueles em que sujeito e objeto se confundem, se identificam, como a consciência subjetiva no processo da autorreflexão. Os juízos sintéticos são aqueles em que o objeto se acrescenta ao sujeito, pela operação de síntese do juízo.
Pelo que acabamos de examinar, vemos logo que o instrumento do conhecimento é o juízo sintético. Isso quer dizer que conhecemos por um processo de síntese. Porque, de fato, o processo de análise, na exposição kantiana, não permite transição. O pensamento autorreflexivo só se conhece a si próprio. Se a consciência só possuísse essa maneira de ser, a autorreflexiva, não haveria conhecimento e, consequentemente, nem Filosofia. Mas, como a consciência possui também a segunda maneira, que podemos chamar de perceptiva ou comunicativa, então existe o conhecimento e, consequentemente, o problema da sua natureza, que temos de resolver.
Kant entende, assim, que o problema fundamental, na crítica do processo do conhecimento, é o de saber como são possíveis os juízos sintéticos. Entretanto, se estes juízos dependem não apenas da experiência sensível ou das sensações, como queriam os empiristas, mas também, e fundamentalmente, das condições a priori da própria mente, o que temos de saber é como são possíveis os juízos sintéticos a priori.
Já vimos que a consciência possui duas formas fundamentais de modelagem da experiência sensível, que são as intuições inatas, universais, de espaço e tempo. Vimos também como essas formas recebem e modelam a matéria das sensações, dando-lhes unidade e estabilidade. E eis descoberto o grande momento em que o mundo nasce dentro de nós: a gênese psíquica ou espiritual do Universo. Esse processo genético começa pelo aparecimento do objeto.
Mas como se dá esse aparecimento? Precisamente através da modelagem das sensações nas formas conscienciais de espaço e tempo. A multiplicidade, a variedade instável e inapreensível das sensações, esse fluir constante e rápido dos reflexos das coisas em nossa sensibilidade, esse fluxo imponderável é amoldado pela nossa imaginação nas categorias de tempo e espaço. Então, elas se ordenam e se estabilizam, adquirem sequência e forma, tornam-se objetivas.
Vemos, pois, que o objetivo não é propriamente o que está fora de nós, mas o que, dentro de nós, em nossa consciência, adquire espacialidade e temporalidade. Criamos, pois, o nosso mundo, não um mundo individual para cada um de nós, mas o mundo geral dos seres pensantes, graças às leis gerais do pensamento. E, ao mesmo tempo que verificamos isso, temos de compreender que existe uma irredutível dualidade em nosso processo cognitivo. Porque, de um lado, estão os objetos, essas elaborações da nossa consciência, e, de outro lado, estão as coisas que provocaram ou produziram as sensações de que nos servimos para a nossa modelagem mental. Enfim: de um lado, estão os fenômenos, que são as aparências das coisas reais, aquilo unicamente que percebemos e podemos perceber; e, de outro lado, estão os númenos, as coisas em si, existindo fora das modalidades de espaço e tempo da nossa consciência.
São essas as leis universais do processo cognitivo. Todos os seres pensantes aplicam-nas ao material da experiência, isto é, aos dados da sensação, e com elas constroem o mundo que conhecemos e no qual vivemos. Quando, entretanto, queremos aplicar as intuições de espaço e tempo, ou as categorias, a coisas que não podemos experimentar, caímos infalivelmente nas antinomias, que nos levam ao erro e à confusão.
Entre os exemplos de antinomia dados por Kant está o da afirmação e negação das limitações do mundo. Quando dizemos que o mundo tem um início temporal e uma limitação espacial, chocamo-nos com a ideia contrária, de que o mundo é infinito no tempo e no espaço. Por esse mesmo motivo, não podemos aplicar nossas intuições e nossas categorias a Deus, à imortalidade e à liberdade. Porque essas coisas não são percebidas pelos sentidos, não constituem conceitos intelectuais, mas são ideias da razão.
Isso quer dizer que o intelecto é uma faculdade da consciência, que modela os conceitos e nos dá o conhecimento, e a razão é outra faculdade, que se relaciona com as ideias puras, os númenos, as coisas em si, inacessíveis à experiência. Eis uma nova dualidade com que a Crítica se defronta. Um novo aspecto da natureza antinômica do processo cognitivo, essa natureza de que Hegel irá derivar, mais tarde, as leis de contradição do seu sistema dialético.
Essa distinção entre intelecto e razão corresponde ao velho dualismo de corpo e alma, e nos leva de volta ao mito platônico da caverna. Mas é evidente que Kant a colocou em termos claros e precisos, anulando os motivos de confusão e as imprecisões que a tornavam objeto de disputas intermináveis e negações tão infundadas quanto as afirmações a que se opunham.
Já dissemos que as incompreensões em torno da Crítica da Razão Pura levaram Kant a escrever os Prolegômenos a Toda Metafísica Futura. As incompreensões continuam, apesar dos Prolegômenos. Há mesmo quem veja contradições em Kant, por entender que o filósofo destruiu Deus, a imortalidade da alma e o livre-arbítrio humano naquele livro, para depois os admitir na Crítica da Razão Prática. Há também quem o apresente como um demolidor arrependido, que habilmente reconstrói o mundo destruído das certezas morais.
Devemos precaver-nos contra essas fáceis interpretações ou engenhosas maquinações. Kant é um pensador admiravelmente coerente. Quando surpreendermos nele uma incoerência, desconfiemos antes do nosso próprio senso e examinemos melhor o problema.
Realmente, para Kant, como vimos, Deus não pode ser compreendido nas limitações de espaço e tempo das nossas básicas intuições intelectivas, nem apreendido pelas categorias mentais. Nem a imortalidade da alma ou o princípio de liberdade podem caber nessas medidas do intelecto. Porque nem Deus, nem a imortalidade, nem a liberdade são entidades fenomênicas, perceptíveis através dos sentidos orgânicos por meio das sensações. Em vez de sombras na parede da caverna, defrontamo-nos aí com ideias, com realidades pertencentes ao mundo da luz, para o qual os nossos olhos mortais se mostram cegos. Essas são, na realidade, coisas em si, númenos, que escapam ao intelecto, uma vez que este só opera no plano dos fenômenos.
Há, pois, o racional e o intelectivo, equivalentes ao inteligível e ao sensível platônico. A Ciência, ou o conhecimento, aquilo, enfim, que entendemos pela nossa capacidade de perceber e dominar o mundo, e que despertou em Bacon a ambição do supremo domínio da Natureza nada mais é que a ordenação do sensível dentro das leis fundamentais da consciência. Mas fora e além, acima mesmo do sensível, do mundo fenomênico, existe a realidade que escapa ao poder da Ciência, exatamente por não ser sensível.
E é com isto, e por isto, que Kant se torna o que se costuma chamar de "o fundador do idealismo alemão". E é por isso que ele, como um anjo, mergulha no abismo de Hume e salva a Filosofia do agnosticismo, librando suas asas para os novos voos ao longo do eterno desfiladeiro das contradições humanas.
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