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Entre o compasso e a razão: Kant e o dever maçônico. Parte 1.

 

Entre o Compasso e a Razão: Kant e o Dever Maçônico

Neste texto, convido você a refletir sobre a profunda conexão entre as ideias filosóficas de Immanuel Kant, os ensinamentos da Maçonaria e os princípios da Doutrina Espírita. A partir da obra Os Filósofos, de Herculano Pires, um dos grandes intérpretes do Espiritismo à luz da filosofia. Será explorado como Kant, ao desenvolver os ideais do Iluminismo, influenciou conceitos centrais como dever, liberdade, consciência e educação moral. Além de conhecer um pouco da biografia de Kant, veremos como esses valores são incorporados pela Maçonaria em sua proposta de autoconstrução e também como dialogam com a visão espírita de progresso espiritual, responsabilidade individual e aprimoramento da alma. Eis o início do texto, com sua biografia: 

Immanuel Kant nasceu em Koenigsberg, a 22 de abril de 1724. Já vimos que descendia de uma família de operários, de origem escocesa. A pobreza familiar não o impediu de seguir a carreira intelectual, e muito contribuiu para isso a posição pietista da família. Kant encontrou apoio na ordem religiosa para ingressar na escola e tentar a carreira eclesiástica.

No Colégio Fredericianum, em que iniciou seus estudos, aprofundou-se, antes de mais nada, no conhecimento do mundo moral, submetendo-se à rigorosa disciplina espiritual, que o prepararia para a realização futura de sua grande obra filosófica.

Em 1740, Kant entra para a Universidade de Koenigsberg, a fim de estudar Teologia. Sua mãe desejava ardentemente que o filho se tornasse um grande teólogo. Mas é ali que o vemos encontrar-se ao mesmo tempo com Knutzen, que o inicia em Leibniz, e com Teske, que o familiariza com Newton. Em 46, vemo-lo abandonar a Universidade, renunciando para sempre à carreira eclesiástica, para dedicar-se ao magistério.

A princípio, durante nove anos, dedica-se ao ensino particular. Ao mesmo tempo, aprofunda-se de tal maneira no estudo das ciências naturais, que parece destinado a tornar-se um cientista. Escreve seu primeiro trabalho: Pensamentos Sobre a Verdadeira Avaliação das Forças Vivas, e em 55 lança a sua famosa História Geral da Natureza e Teoria do Céu, obra que contém a chamada teoria Kant-Laplace, superando a mecânica celeste de Newton e projetando-se no futuro.

Ainda em 55, Kant apresenta sua tese de doutoramento: um tratado sobre o fogo. A polarização heraclitiana a que nos referimos atrás se acentua neste momento. Mas Kant revela novamente o seu gênio, antecipando conquistas modernas da Ciência, com suas indagações sobre os imponderáveis. Mais tarde, publica sua Monadologia Física, logo seguida por um pequeno trabalho intitulado Novo Conceito do Movimento e do Repouso.

O isolamento filosófico de Kant não quer dizer misantropia. Ele viveu o seu tempo, ligado aos homens e aos seus problemas. Tornou-se mesmo uma espécie de oráculo moderno, em cuja palavra os contemporâneos buscavam a explicação e a orientação para os momentos críticos. Quando, por exemplo, o terremoto de Lisboa abalou o mundo, com profundas repercussões em toda a Europa, Kant escreveu dois trabalhos sobre o fato.

A vida de Kant apresenta assim uma curiosa dualidade. O solitário de Koenigsberg não vive em solidão. Afastado dos grandes centros culturais, da convivência dos grandes pensadores da época, ele convive com os seus concidadãos, partilha-lhes as preocupações, as angústias e as alegrias. Na Guerra dos Sete Anos, Koenigsberg foi ocupada pelos russos.

Em 1758, vagou-se uma cátedra da Universidade local, mas o general russo que dominava a cidade não permitiu que o filósofo a ocupasse. Só em 1770, convidado ao mesmo tempo para ocupar cadeiras em Erlanger e Iena, o que mostra o seu triunfo além dos limites da terra natal, Kant é também nomeado para a sua cadeira de Koenigsberg. Inicia, então, o seu ensino na cadeira e a sua nova filosofia.

Todo o transcorrer de sua existência nos parece hoje admiravelmente sereno e ordenado. Kant parece haver planejado a sua vida nos mínimos detalhes, traçando um esquema de que não se afastou, nem mesmo sob o fascínio da glória, com que muitas vezes lhe acenaram do exterior. É conhecida a anedota segundo a qual os moradores de Koenigsberg acertavam o relógio pela sua passagem nas ruas, em seus passeios invariáveis.

Sua atitude perante a vida é a de um perfeito estóico. Certa vez, quando o ministro Wollner intensificava a censura religiosa na Prússia, Kant foi proibido de ensinar a sua filosofia. Tranquilamente, esperou que o tempo corresse, e, quando, em 1797, a proibição foi levantada, o filósofo já estava alquebrado, mas tinha em mãos o que oferecer ao mundo. Desde 1770 ele trabalhava incansavelmente na sua obra, e mesmo sob a tirania não deixou um só instante de construí-la.

Sua grande obra, Crítica da Razão Pura, apareceu em 1781. Mas tão grande confusão causou nos espíritos, que Kant teve de publicar, dois anos mais tarde, uma explicação da obra, sob o título de Prolegômenos a Toda Metafísica Futura. Em 1787, Kant lançou a segunda edição da Crítica da Razão Pura, mas de tal forma refundida, que iria suscitar dali por diante verdadeira polêmica filosófica sobre o valor de uma e de outra edição. As diferenças, assinaladas por Schelling, Jacobi, Schopenhauer e Rosenkranz, relacionam-se, entretanto, como assinala Windelband, com o desenvolvimento de pensamentos apenas enunciados na primeira edição, e a que Kant deu, mais tarde, a amplitude que julgava necessária.

De 1785 a 1795, num decênio, portanto, Kant publicou numerosas obras, completando o seu vasto sistema filosófico. Dessas obras se destacam a Crítica da Razão Prática, em 1788; a Crítica do Juízo, em 1790; O Começo Provável da História Universal, em 1786; O Fim de Todas as Coisas, em 1794; e Projeto Filosófico Para Uma Paz Perpétua, em 1795.

Com este projeto, Kant se apresenta como o profeta da Federação Mundial, prevendo a reunião dos Estados Livres num organismo superior, cuja principal finalidade é a proibição da guerra entre os povos. Já no fim da vida, e presenciando o fracasso da Revolução Francesa com o império do Terror, Kant procura, entretanto, salvar a fé na Razão, cujo domínio mundial se imporia através de um governo internacional que agisse segundo os seus ditames. Esta obra tornará Kant um dos condenados do Nazismo, na Alemanha dos nossos dias.

Vemos assim que a razão kantiana não é apenas a razão pura, mas também a razão prática, porque não basta o raciocínio para assegurar a felicidade humana, é também necessário o sentimento. Kant, o racionalista, não se afasta de Kant, o sentimentalista. As heranças pietista e swedenborguista exerceram poderosa influência em toda a sua vida.

O mundo de Kant, portanto — não apenas o mundo em que ele vive, mas, num admirável exemplo de coerência entre teoria e prática, também o seu mundo filosófico — é sobretudo um mundo moral. As leis da Moral regulam esse mundo, como as leis físicas regulam o mundo material.

O pensador solitário de Koenigsberg, que por um lado se polariza no tempo e no espaço com o pensador solitário e obscuro de Éfeso, por outro lado sintoniza o seu espírito agudo com o de Sócrates, e, como este, prefere não deixar Atenas, para poder viver melhor e mais intensamente a sua vida moral, no seu mundo moral.

Pode parecer estranho que o mundo moral de Kant, na realidade da sua existência, tenha sido o mundo do celibatário. Mas não parece que o foi de maneira proposital. Consta que, pelo menos duas vezes, o filósofo pretendeu casar-se. Entretanto, como nada fazia sem primeiro pensar profundamente a respeito, não chegou a consumar essa pretensão. Justifica-se assim o adágio: quem pensa não casa.

E a verdade é que, mesmo solteiro, levou a vida metódica e pura do mais honesto pai de família.

Ao falecer, a 12 de fevereiro de 1804, próximo dos 80 anos, não pediu mais luz, como Goethe, nem recomendou que seguissem os seus dogmas, como Epicuro. Apenas, com a tranquilidade do homem que cumpriu o seu dever e realizou a sua obra, exclamou: Es ist gut, ou seja, “Está bem”. E realmente estava.

… Continua na parte 2 do artigo. 


Referência: 

Pires, Herculano. Os filósofos, São Paulo: FEESP, 2001.

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