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Do Mentor ao Mestre maçom.

 

Mestre e aprendiz. Maçonaria. Telêmaco e Mentor.

Ao me deparar com as notícias sobre a aguardada estreia do filme focado na saga de Ulisses, para junho de 2026, tive uma reflexão e nostalgia literária. Essa produção, que promete resgatar uma das grandiosas epopeias da Antiguidade, reconduziu-me às páginas da clássica obra *As Aventuras de Telêmaco*, do escritor francês François Fénelon. Enquanto o grande público volta seus olhos para a figura mítica do herói de Ítaca nas telas dos cinemas, meus pensamentos se fixaram, de maneira inevitável, na emblemática relação edificada entre o jovem Telêmaco, filho de Ulisses, e seu sábio Mentor ao longo daquela narrativa didático-pedagógica. 


Como maçom, tracei um paralelo imediato entre essa clássica dinâmica mítica e os ensinamentos vivenciados em nossas Lojas maçônicas, onde a busca pelo aperfeiçoamento moral é o norte de nossas ações. A estória de educação de Fénelon ganha uma cor nova sob a ótica da nossa Ordem, pois a figura de Mentor se confunde com o papel desempenhado pelo Mestre Maçom na condução e instrução do Aprendiz.


Na obra, o mestre mitológico encarna a própria deusa Minerva, apresentando uma beleza modesta e desprovida de artifícios, cujas virtudes são estruturadas na seriedade, na nobreza e em uma força majestosa que ensina a vencer os prazeres mundanos. Essa postura de retidão e busca pela sabedoria é o que se espera de um verdadeiro Mestre em nossa instituição, alguém capaz de guiar o neófito através do exemplo vivo e da transmissão dos mistérios da Arte Real. Mentor admoesta Telêmaco sobre os perigos da luxúria infame e da frouxidão, alertando que os homens entregues aos prazeres desregrados carecem de coragem na hora do perigo, uma lição que ecoa perfeitamente na máxima aristotélica de que o homem corajoso é aquele que enfrenta as adversidades em vista do bem. Na Maçonaria, essa coragem e imperturbabilidade diante dos riscos e da própria finitude humana são virtudes exigidas daqueles que buscam desbastar a sua Pedra Bruta com o cinzel e o malho. 


Além disso, a emblemática passagem em que Mentor admoesta o jovem príncipe por relatar suas aventuras com vaidade e ambição para a deusa Calypso resume com perfeição o valor do silêncio e da prudência que tanto prezamos em Loja. Telêmaco, envaidecido pelos elogios vazios, é contido pela sabedoria de seu guia, que o ensina a combater a glória fútil e a falar sem soberba, despertando no aluno uma postura de respeitosa atenção em seu silêncio iniciático. Assim, proponho-me a explorar neste trabalho, a arte de bem governar a si mesmo, demonstrando que a verdadeira pedagogia maçônica reside na transmissão da coragem, da prudência e, acima de tudo, na força transformadora do exemplo que o Mestre Maçom deve ser para o Aprendiz.


A relação entre Mentor e Telêmaco, imortalizada na obra de Fénelon, transcende o contexto didático tradicional e serve como um reflexo da dinâmica existente em uma Loja Maçônica entre o Mestre e o Aprendiz. Assim como o jovem grego, impetuoso e imprudente, necessitou das orientações firmes e da serenidade de Mentor para cruzar territórios desconhecidos em busca de Ulisses. O Aprendiz Maçom inicia sua jornada mística imerso em conceitos e mistérios que ainda não consegue decifrar integralmente. Na Maçonaria, os perigos enfrentados não são físicos, mas morais e intelectuais, e o papel exercido pelo Mestre assemelha-se ao do velho sábio mitológico: guiar os passos iniciais, ensinar a prudência e incentivar a busca incessante pelas virtudes essenciais da Filosofia e da Geografia Sagrada que compõem a egrégora do templo.


No entanto, a essência do aperfeiçoamento em Loja não reside em simples transferência passiva de um modelo rígido de ensino professoral, mas sim na autodeterminação do neófito. Os Mestres da Loja, incluindo os Vigilantes no cumprimento de suas obrigações litúrgicas e o Padrinho na sua mentoria pessoal, atuam como facilitadores que propõem conceitos, organizam o ambiente de estudo e fornecem as ferramentas para a caminhada, sabendo que o esforço de evolução íntima pertence unicamente ao iniciando.


Neste cenário de autodesenvolvimento, a palavra que melhor define a atuação do Mestre Maçom perante o Aprendiz é o "exemplo". Considerando que os Aprendizes que ingressam na Ordem são homens adultos, maduros, dotados de espírito crítico e com suas personalidades já consolidadas na sociedade profana, eles não são facilmente impressionáveis por exortações teóricas de irmãos vaidosos, que não se sustentem na prática cotidiana, aliás, vaidade,  do grego, (Metaiotes) significa vazio, palavras impressionantes, mas vazias.  Textos eloquentes e conceitos exuberantes perdem todo o valor quando são desmentidos por condutas desleixadas ou incoerentes fora e dentro do templo, de modo que a pedagogia maçônica repudia veementemente a máxima popular de agir em desconformidade com aquilo que se prega em Loja.


A postura ardorosa do jovem iniciante encontra o seu ponto de equilíbrio na estabilidade e na integridade moral que o Mestre demonstra através de suas atitudes diárias, solidificando o aprendizado real da simbologia. O aperfeiçoamento recíproco é a chave desse sistema, pois ao se policiar para servir de guia para os mais novos, o próprio Mestre Maçom é compelido a trabalhar com mais afinco, estudando e corrigindo as suas próprias falhas para dar sempre o melhor de si mesmo. 


Lembrando por fim, um trecho do livro “O mestre na Educação”, de Pedro de Camargo, também conhecido por Vínícius :


“Mestre é aquele que educa. Educar é apelar para os poderes do Espírito. Mediante esses poderes é que o discípulo analisa, perquire, discerne, assimila e aprende. O mestre desperta as faculdades que jazem dormentes e ignoradas no âmago do ‘eu’ ainda inculto. A missão do mestre não consiste em introduzir conhecimentos na mente do discípulo: se este não se dispuser a conquistá-los, jamais os possuirá.”




Referências: 


CAMARGO, Pedro de (Vinícius). O mestre na educação. 1. ed. Brasília: FEB Editora, 2019.

O Mestre Maçom perante o Aprendiz e o Companheiro. A Partir da Pedra, 23 mai. 2013. Disponível em: https://a-partir-pedra.blogspot.com/2013/05/o-mestre-macom-perante-o-aprendiz-e-o.html. Acesso em: 16 maio 2026.

SILVA, Juscely Maria da; ROCHA, Maria Zélia Borba. "As aventuras de Telêmaco": as ideias pedagógicas de Fénelon. Humanidades & Inovação, Palmas, v. 8, n. 34, p. 391-401, mar. 2021. Disponível em: https://revista.unitins.br/index.php/humanidadeseinovacao/article/view/4952. Acesso em: 16 maio 2026.

TRINDADE, D. F. Prefácio. In: FENELON, F. S. L. M. As aventuras de Telêmaco: filho de Ulisses. São Paulo: Madras, 2006.


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