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A jornada do maçom rumo à perfectibilidade.

 

Esse texto, do insigne autor José Herculano Pires, conecta-se intimamente à filosofia da sublime Ordem  ao defender que a educação deve focar no desenvolvimento das potencialidades humanas para alcançar a perfectibilidade, ecoando diretamente o trabalho constante de desbastar a nossa pedra bruta. Resumidamente, o autor menciona que a jornada humana transcende a mera adequação aos ditames sociais; é, em sua essência, o labor incessante de desbastar a aspereza do próprio ser em busca de uma perfectibilidade latente. Não se trata de assimilar dogmas ou verdades externas, mas de empreender um mergulho corajoso nas profundezas de si mesmo, onde, ao retificar as próprias sombras, revela-se a sabedoria oculta que sempre lá habitou. Essa centelha íntima, reflexo de um princípio criador superior, é a fundação silenciosa sobre a qual se ergue o santuário inviolável da consciência. Para que essa obra se sustente, contudo, é imperativo romper com as amarras do tempo cristalizado e arrancar as máscaras de formalismos e hipocrisias que asfixiam o espírito. Assim, a verdadeira virtude não nasce da imposição do mundo, mas da geometria secreta da própria alma, que, ao dar retidão às suas ações e medida às suas paixões, encontra na ordem interior a sua mais pura liberdade.  Assim, o autor aborda a evolução humana, a educação e a consciência de uma maneira que espelha os princípios fundamentais da Maçonaria.

Eis um segmento parcial do texto no livro “O Mistério do Ser ante a Dor e a Morte: Uma visão atual da problemática existencial à luz da Filosofia, da Religião e da Ciência”, editado para o blog:

Os Caminhos Incertos da Experiência


A jornada humana transcende a mera adequação aos ditames sociais; é, em sua essência, o labor incessante de desbastar a aspereza do próprio ser em busca de uma perfectibilidade latente. Não se trata de assimilar dogmas ou verdades externas, mas de empreender um mergulho corajoso nas profundezas de si mesmo, onde, ao retificar as próprias sombras, revela-se a sabedoria oculta que sempre lá habitou. Essa centelha íntima, reflexo de um princípio criador superior, é a fundação silenciosa sobre a qual se ergue o santuário inviolável da consciência. Para que essa obra se sustente, contudo, é imperativo romper com as amarras do tempo cristalizado e arrancar as máscaras de formalismos e hipocrisias que asfixiam o espírito. Assim, a verdadeira virtude não nasce da imposição do mundo, mas da geometria secreta da própria alma, que, ao dar retidão às suas ações e medida às suas paixões, encontra na ordem interior a sua mais pura liberdade.


Os adultos e os velhos se apegam à experiência da vida como seu galardão e prova indiscutível de sabedoria e autoridade. Mas as novas gerações se revoltam, de uma forma ou de outra, contra essa pretensão das gerações envelhecidas. O conflito de gerações não decorre simplesmente das diferenças etárias, dos desníveis da idade. O processo da experiência constitui-se de dois elementos fundamentais: a conquista progressiva do mundo dos adultos pelos jovens, que começam pelo instinto de imitação que caracteriza as fases infantis e molda os jovens pelo comportamento, o vestuário e as regras sociais e morais dos avós e dos pais. Por isso, na educação antiga as crianças e os adolescentes eram considerados como adultos em miniatura. A revolução pedagógica de Rousseu produziu o primeiro impacto nessa sistemática, abrindo as perspectivas da educação moderna, fundada na Psicologia da Infância e da Adolescência e na orientação ética das novas gerações. Os métodos de amoldagem foram pouco a pouco cedendo lugar aos processos de desenvolvimento das potencialidades. Pestalozzi, mais educador do que pedagogo, o que vale dizer mais prático do que teórico, deu aos fins da educação um sentido universalista, segundo o qual o educando não devia amoldar-se ao passado, mas lançar-se ao futuro. Kant reconheceu que a educação tinha por objetivo real, não a acomodação, mas o deslocamento do ser no espaço e no tempo, em busca da perfeição. Voltava ao princípio socrático do desenvolvimento das potencialidades ocultas no educando.

Cada ser trazia em si a sua própria sabedoria, cabendo ao educador proceder no educando o parto do espírito, com a revelação das suas potencialidades. A educação se transformava, assim, no processo de desenvolvimento no educando de toda a sua perfectibilidade possível, ou seja, de toda a perfeição que o ser pode atingir. Essa é a educação universal da Humanidade, que não se confunde com a adaptação do ser aos usos e costumes, crenças e vivências de uma determinada sociedade.


Ao examinar essa proposição, descobrimos de imediato as molas secretas da evolução humana, que Kardec, discípulo e continuador da pedagogia pestalozziana, revelou, através de suas pesquisas dos fenômenos paranormais, a natureza do homem, integrando-o na realidade cósmica como uma unidade palingenésica que, como todas as coisas, não se perde nem se destrói com a morte corporal. A Economia Divina não permitia o desperdício sem sentido de sua maior e mais bela conquista, que é a formação do ser humano. Nada se perde, tudo se transforma.

A teoria posterior, baseada em Kardec, no dínamo-psiquismo de Gustave Geley, confirmava-se claramente na descoberta desse vetor ou unidade energética do processo evolutivo. "Nascer, viver, morrer, renascer ainda e progredir sem cessar, essa é a lei". proclamou Kardec, repetindo o ensino de Jesus a Nicodemos.


Essa descoberta científica do Espiritismo, que as Ciências posteriores foram obrigadas a confirmar, desde Richet até Rhine, marcou o maior avanço do Conhecimento Humano na segunda metade do século XIX, abrindo os caminhos do espantoso progresso científico do nosso século ( século XX).

Era natural que os povos da Antiguidade, apesar das intuições da sabedoria grega clássica, não tivessem podido entrar no uso e gozo desse conhecimento, por falta dos recursos e do clima libertário que só apareceriam mais tarde. A agressividade dos séculos de arbítrio era endógena, brotava das entranhas do homem como herança das fases primárias em que a razão era esmagada pela brutalidade da força em suas mínimas manifestações. Essa herança ainda pesa sobre nós, mas a abertura do nosso século facilitará a extinção dos seus últimos resíduos, apesar da resistência dos instintos animalescos que carregamos.


A experiência favorece a adaptação do homem ao mundo, mas a insegurança do homem ante a variedade das situações que enfrenta o leva a criar e manter dispositivos de segurança que são cristalizações da experiência embargando as vias de acesso ao futuro. Podemos ver isso com nitidez nas estruturas sociais de todos os tempos. As forças de defesa da sociedade convertem-se em dispositivos de repressão que as transformam em mecanismos rígidos de asfixia da liberdade. O ensaio de Denis em Rougemont, A Aventura Ocidental do Homem, confrontando as condições massivas das tribos e das hordas com as massivas civilizações orientais, tornou transparente essa afinidade histórica dolorosa. Esparta venceu Atenas, engrenando de novo o cidadão ateniense na opressividade das estruturas brutais, agora desenvolvidas ao máximo na racionalidade anti-racional da expansão tecnológica. A civilização cristã negou-se a si mesma por medo de suas próprias criações e apego à sua suposta perfeição. A advertência de Jesus: "quem se apega a sua vida perdê-la-á" foi aplicada às avessas na tradução latina dos romanos. Ao se conluiar com o Império, a Igreja Cristã perdeu o sentido da sua vida espiritual e se profanou na aventura ocidental das conquistas a ferro e fogo. O mesmo aconteceu na rotina da vida familial, onde a autoridade dos pais, voltada para a segurança dos filhos, despertou-lhes a revolta ante as exigências contrárias ao impulso de renovação das novas gerações.


Ingenieros proclamou em As Forças Morais que a juventude toca a rebate em toda renovação. Dewey mostrou que a função das novas gerações não é a de se acomodar às experiências das gerações passadas, mas a de reelaborá-las de acordo com as exigências dos novos tempos. Mas o apego dos homens às estruturas cristalizadas e prescritas e aos formalismos hipócritas negou aos filhos o direito de cumprir os seus deveres, estabelecendo, assim, conflito de gerações com todos os excessos do desespero e da angústia, a chamada angústia existencial dos nossos dias.

A experiência tem a sua validez limitada pelas condições de cada época. O processo experiencial é regido pelas leis da evolução, na medida dos novos problemas que surgem. A escala de valores de uma época torna-se perempta na época seguinte.

Disso decorre a inaplicabilidade das normas do passado ao comportamento humano da época seguinte.


A idéia de que a moral decorre dos usos e costumes já se torna caduca em nossos dias, dado o avanço do conhecimento no campo das Ciências Humanas, particularmente no plano psicológico e no ontológico.

Graças às contribuições de Bergson, René Hubert, Kerschensteiner e Rhine ficou demonstrado que a moral decorre das leis extrafísicas da consciência, manifestadas através do pensamento. Ao contrário do que se pensava até agora, os usos e costumes não surgem apenas dos meios sociais em organização, mas também e sobretudo das exigências conscienciais do homem. Os costumes (morais) que parecem determinar a moral, na verdade são determinados, orientados e disciplinados pelas exigências conscienciais provenientes das aspirações de ordem, paz e felicidade inscritas na mente e na afetividade humana e projetadas pela vontade no plano das atividades práticas. A experiência concreta no mundo revela ao homem os meios de ação mais compatíveis com aquelas aspirações. Os instintos animais em evolução, nos processos evolutivos para o plano hominal, desenvolvidas as suas potencialidades, convertem-se em imperativos conscienciais que Sócrates e Kant já haviam previsto em suas intuições antecipadoras. Em cada nova geração esses imperativos conscienciais se renovam, modificando o panorama moral do planeta. As fases de aparente retrocesso correspondem aos períodos de conflito em que a consciência luta contra o apego ao passado. Em nosso tempo é visível essa luta contra preconceitos formais e hipocrisias cristalizadas e já há muito rompida pelas exigências da vida prática.


Toda moral legítima se impõe inevitavelmente pela própria força da sua autenticidade. Na reelaboração da experiência as novas gerações quebram os tabus do passado, destroem os preconceitos e arrancam as máscaras da hipocrisia institucionalizada. Aldous Huxley revela, em O Gênio e a Deusa, a condição conflitiva a que chegou a moral vitoriana na Inglaterra atual, no mais elevado plano da intelectualidade. Dos destroços da última conflagração mundial a moral saiu

esfarrapada em todo o mundo. Não se trata de uma decadência ou até mesmo, como querem alguns retardatários, da morte da moral, mas de uma renovação profunda que tem de remover pesados escolhos à custa de grandes sacrifícios e duras vergonhas. Passado esse período de transformação, o gênio não se mostrará tão esquizofrênico ao peso da sua inteligência e a deusa não será tão leviana e inconsequente. Impõe-se a volta à naturalidade nas relações sociais, afastando-se os escolhos dos formalismos mentirosos com sua carga de hipocrisia aviltante, deformadora da criatura humana. 


O homem decaído terá de reabilitar-se ao peso da sua própria consciência. Suas aspirações de pureza, bondade e justiça provêm da mônada divina - a idéia de Deus no homem -, que nunca foi nem poderá ser afetada pelas crises da instabilidade social. 


Referência:


PIRES, José Herculano. O Mistério do Ser ante a Dor e a Morte: Uma visão atual da problemática existencial à luz da Filosofia, da Religião e da Ciência. São Paulo: Paidéia, 1990.


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