A história de padre Eutíquio Pereira da Rocha não é apenas a de um homem perseguido pela Igreja, é o retrato vivo de uma crise que J. Herculano Pires, em sua obra Agonia das Religiões, descreveu com precisão ao afirmar que as instituições religiosas, ao longo dos séculos, foram incapazes de acompanhar a evolução do espírito humano, encastelando-se no dogma e na coerção em vez de abraçar a liberdade de consciência. Eutíquio viveu exatamente essa contradição no Pará oitocentista: padre, maçom e político, ele ousou pertencer ao mesmo tempo a duas instituições que disputavam os corações e as mentes da sociedade brasileira do século XIX. Para a Igreja ultramontana, sua dupla fidelidade era intolerável; para ele, era a única forma coerente de viver a fé sem hipocrisia. Sua trajetória revela que o conflito entre religião institucional e liberdade de pensamento não é privilégio da modernidade, ele já ardia, com toda a sua força, nas ruas de Belém do Pará, mais de cem anos atrás.
Ele nasceu em Salvador, na Bahia, a 15 de maio de 1817, época em que o Brasil imperial ainda respirava pelos pulmões da Igreja Católica, instituição que dominava não apenas as consciências, mas também os espaços de poder político e intelectual do país. Desde jovem, trilhou o caminho do sacerdócio, cursando o seminário episcopal na própria província natal e ordenando-se padre secular com a convicção plena de que fé e razão podiam caminhar juntas sem contradição. Era homem de letras e de causa, dotado de uma inteligência inquieta que o tornaria, ao longo da vida, figura simultaneamente admirada e temida nos círculos em que circulou.
Em meados do século XIX, movido por novos horizontes e pela efervescência intelectual que agitava o Império, tomou a decisão de migrar para a província do Pará, radicando-se na cidade de Belém, onde encontraria tanto sua maior expressão pública quanto suas mais duras perseguições. Logo após sua chegada, assumiu a presidência do Convento do Carmo, posição que lhe conferiu prestígio clerical e visibilidade social, mas que não foi suficiente para conter o ímpeto transformador que o movia por dentro. Belém era, naquele momento, uma cidade em ebulição, palco de disputas entre liberais e conservadores, entre maçons e ultramontanos, entre defensores da escravidão e vozes cada vez mais altas pelo abolicionismo, e Eutíquio não tardou em escolher seu lado.
Adepto convicto do Liberalismo, filiou-se ao Partido Liberal e passou a atuar ativamente na vida política da cidade, chegando a ocupar cadeira como vereador na Câmara Municipal de Belém, onde suas opiniões eram tidas como judiciosas e sua presença, como incontornável. Em 1857, deu o passo que selaria definitivamente seu destino ao ingressar na Maçonaria, mais especificamente na Loja Capitular Harmonia n. 08, fraternidade que a Igreja Católica condenava com veemência, classificando-a como incompatível com a fé cristã e com os votos sacerdotais. Longe de recuar, Eutíquio não apenas permaneceu na ordem como ascendeu vertiginosamente em seus graus, atingindo o nível 33 e tornando-se Delegado do Grão-Mestre da Maçonaria na província do Pará, um dos postos mais elevados que um maçom poderia ocupar naquele contexto regional. Para ele, a adesão à Maçonaria não representava traição à fé, mas uma extensão natural dos ideais de liberdade de consciência, igualdade entre os homens e tolerância religiosa que abraçava como princípios filosóficos e cristãos ao mesmo tempo.
Dentro desse engajamento duplo, clerical e maçônico, tornou-se um dos principais intelectuais organizadores da imprensa maçônica no Pará, sendo figura central do jornal O Pelicano, publicação que alcançou grande notoriedade e que se notabilizou tanto pelo combate ao conservadorismo da Igreja Católica quanto pelo impulso vigoroso à causa abolicionista. A relação entre a Maçonaria paraense e o abolicionismo foi estudada com profundidade pelo historiador Elson Monteiro, que em 2012 publicou A Maçonaria e a Campanha Abolicionista no Pará (1870-1888), obra na qual demonstrou haver uma ligação estreita entre os maçons da província e o movimento emancipacionista, expressa no engajamento deles na imprensa, na organização de sociedades emancipadoras e na articulação em prol da compra de alforrias.
Nesse estudo, Monteiro elencou padre Eutíquio como um dos intelectuais maçons mais ativos na organização dos jornais dedicados às reflexões da ordem e ao combate do conservadorismo eclesiástico, destacando O Pelicano como o grande veículo dessas ações. Mais tarde, em 2016, fruto de sua tese de doutoramento, Monteiro retomou a figura de Eutíquio em Maçonaria, Poder e Sociedade no Pará na segunda metade do século XIX (1850-1900), desta vez enfocando sua participação na rede de sociabilidade construída pelos maçons na sociedade paraense oitocentista, que engendrava o engajamento político na imprensa e os debates sobre liberdade de consciência e liberdade de cultos, questões que se tornaram ainda mais candentes durante a Questão Religiosa de 1872, quando as divergências com a Igreja ultramontana se tornaram mais sensíveis à percepção de toda a sociedade brasileira.
Padre Eutíquio era, portanto, um daqueles raros sujeitos históricos que pertenciam simultaneamente a duas instituições em franca disputa pelo poder e pelos corações da população, o clero católico e a Maçonaria, e navegava entre elas com uma convicção que seus adversários interpretavam como arrogância e seus admiradores como coragem. A Igreja, porém, não estava disposta a tolerar tal ambiguidade: o bispo Dom Antônio de Macedo Costa, líder do movimento de Romanização que buscava submeter integralmente o clero brasileiro à autoridade de Roma, tornou-se implacável adversário. A disputa entre os dois extrapolava o campo religioso e ganhava contornos políticos nítidos, sendo instrumentalizada pelo Partido Conservador, que encontrou no Visconde de Arari, então presidente da província, o agente disposto a acatar a portaria de suspensão assinada pelo bispo, afastando Eutíquio da cátedra de Direito Canônico no Seminário Episcopal.
A imprensa católica, representada especialmente pelo jornal A Boa Nova, encarregou-se de construir sobre ele uma memória de apóstata, rebelde, impuro e excomungado — discursos que atravessaram décadas, moldaram a historiografia eclesiástica e durante muito tempo reduziram sua trajetória à imagem do inimigo do bispo, apagando tudo o mais que ele havia sido.
Padre Eutíquio Pereira da Rocha faleceu em Belém a 20 de agosto de 1880, deixando registrado em suas disposições testamenteiras o quanto a fé e a liberdade, para ele, jamais foram caminhos opostos. Sua memória, no entanto, sobreviveu venerada no círculo maçônico ao longo de todo o século XX e até os dias de hoje, e uma travessa no centro histórico de Belém carrega seu nome como testemunho silencioso de uma vida inteiramente entregue à liberdade de pensar, crer e agir.
Referência:
PIRES, J. Herculano. Agonia das religiões. São Paulo: Paideia, 1976. Disponível em: https://www.espiritualidades.com.br/Artigos/HERCULANO_PIRES_Jose_textos/Herculano_Pires_Obras/Herculano_Pires_tit_Agonia_das_Religioes.pdf. Acesso em: 29 abr. 2026.
TAVARES, Kelly Chaves. Padre Eutíquio: clérigo, maçom e político no Pará do século XIX. 2020. 261 f. Dissertação (Mestrado em História Social da Amazônia) – Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Federal do Pará, Belém, 2020.

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