Quando o véu se rasga e a Verdadeira Luz o banha, o Aprendiz Maçom compreende que apenas começou a enxergar. O paradigma do Mundo Profano, focado no acúmulo pragmático de informações, cede lugar a um novo método de trabalho. Ele percebe que o conhecimento, antes um fim em si mesmo, agora é ferramenta para uma obra maior: o contínuo aperfeiçoamento do espírito. Cada lição recebida visa enriquecer suas faculdades para que, transformado em um farol de retidão, possa iluminar seu próprio caminho e influenciar positivamente o mundo ao seu redor, seja nos desafios cotidianos ou nas grandes encruzilhadas da vida.
Assim está em GÊNESIS, 1:2 e 3.: "A Terra era vã e vazia; e as trevas cobriam a face do abismo... E disse, então, Deus: 'Faça-se a luz; e a luz foi feita.'"
Como era a Terra no princípio, assim é hoje, no âmbito espiritual, a sua sociedade, em que pese à soberba dos super-homens que a dirigem e orientam. As trevas envelopam a mente e os corações. No seio da Humanidade prevalecem aqueles dois traços que caracterizaram os tempos primitivos; tudo é fútil e oco.
Os grandes problemas sociais são debatidos através dos séculos e dos milênios. Sobre cada um deles acumula-se uma avalancha de teorias e opiniões impregnadas do personalismo dos seus respectivos autores. Muito se discute e muito se polemiza. Contudo, os referidos problemas continuam insolúveis. A enfermidade e a dor, sob seus variados aspectos, continuam a todos afligindo. A miséria, o vício e o crime se propagam e se multiplicam como vivo protesto à alardeada civilização atual. A guerra sangrenta, impiedosa e bárbara prossegue seu curso, como outrora, na sua obra devastadora, semeando a morte e a desolação por quase toda a face do planeta. O direito brutal da força prevalece sobre a força serena do direito. A materialidade dominante sufoca o surgimento de espiritualismo onde quer que ele ouse levantar o seu clamor de protesto ou de alarme. As trevas cobrem a face do abismo!
É imperativo que, de novo, o Divino Verbo pronuncie a sublime sentença através dos arautos celestes. Fiat lux! Sim, faça-se a luz, no âmago das almas que habitam o orbe terráqueo.
Essa mesma Luz é descrita no Evangelho.
Em João 1:1-18, nos versículos 4 e 5, diz-se que "a Luz resplandece nas trevas, e contra ela as trevas que prevaleceram". O sentido literal é de absoluta clareza; por maiores que sejam as trevas, elas não prevalecem nem mesmo contra um pequenino palito de fósforo que se acenda. Entretanto, observamos que há outro sentido, que pode deduzir-se das palavras anteriores. No versículo 4 está explicado: "A Vida é a Luz dos homens". Se a Vida é a Luz dos homens, então as trevas exprimem a morte. Compreendemos, pois: a morte não prevalece contra a vida. Tudo o que nos parece morte, é apenas o desfazimento dos veículos materiais de que está revestido o espírito.
Somente mediante tal acontecimento se alcançará reformar o mundo, trocando-se os usos e costumes bárbaros pelos hábitos e maneiras condizentes com os fundamentais postulados da verdadeira civilização. As providências tomadas fora deste programa não passam de soluções superficiais e remendos, com resultados muito limitados. Não será, jamais, com inseticidas que se eliminarão os mosquitos, mas sim com medidas higiênicas de saneamento do solo onde aqueles insetos encontram meio favorável à sua proliferação.
Enquanto as trevas cobrirem a face do abismo, a Terra continuará sendo o cenário de lutas fratricidas, ambiente propício ao surgimento do crime e do vício, da miséria e da enfermidade. Os homens têm cuidado de tudo que concerne à matéria, deixando o Espírito para plano secundário. Vestiram o corpo de púrpura e de linho finíssimo, deixando a alma em farrapos, seminua, coberta de trapos e andrajos. Escolas que moralizem e instruam, educando o coração e o cérebro da nossa infância e da nossa juventude — eis a grande, a maior de todas as demandas do momento que atravessamos.
"Se é triste", disse Victor Hugo, "ver um corpo morrendo por falta de pão, mais triste ainda é ver uma alma estiolando por falta de luz."
Fiat lux! Dispersem-se as trevas que cobrem a face do abismo em que a materialidade do século mergulhou o nosso orbe. Tudo o mais nos será dado de graça e por adição.
Referências:
PASTORINO, Carlos. Sabedoria do Evangelho. 3. ed. São Paulo: Editora Sabedoria, 1988. v. 1.
VINÍCIUS (Pedro de Camargo). Na Seara do Mestre. 10. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2009.

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