No entendimento sobre a evolução das crenças humanas sobre a vida após a morte, argumenta-se que as primeiras noções de céu e inferno eram projeções materialistas, reflexo do desenvolvimento moral e intelectual de cada povo. As recompensas e punições futuras eram imaginadas com base nas experiências terrenas, como a abundância de caça ou torturas físicas. O inferno cristão é uma herança direta e até exagerada do inferno pagão, com sua ênfase no fogo e no sofrimento corporal.
Argumenta-se que o Mestre dos mestres, Jesus, diante da incapacidade de seus contemporâneos de compreenderem conceitos puramente espirituais, absteve-se de detalhar a vida futura, deixando ao tempo a tarefa de refinar essas ideias. A crença em um destino fixo e eterno é criticada por impossibilitar o progresso da alma. Em contrapartida, a frase "Há muitas moradas na casa de meu Pai" é apresentada como uma revelação que substitui a visão binária de salvação ou danação. Essa nova perspectiva introduz a ideia de múltiplos estados de existência e a possibilidade de evolução contínua para o espírito, superando as antigas concepções dogmáticas.
Na Maçonaria, o conceito de "inferno" não tem a utilidade de um dogma religioso ou de um lugar de punição eterna. Sua serventia é puramente simbólica, filosófica e pedagógica. Fazendo uma comparação do dito “inferno” na maçonaria, a Câmara de Reflexões representa a aplicação prática e individual da jornada simbólica das trevas para a luz como um processo de evolução e purificação. O candidato é colocado fisicamente na escuridão para confrontar seus próprios medos e defeitos — o "abismo das trevas" interior. A superação dessa prova de introspecção é a condição para que ele possa, simbolicamente, renascer, ser purificado e finalmente "ver a luz", que representa o conhecimento e a verdade iniciática.
Em "As Aventuras de Telêmaco", de Fénelon, a obra oferece ao maçom prudente, a experiência alegórica completa de sua própria jornada iniciática. A partida de Telêmaco em busca de seu pai representa a saída do Mundo Profano em busca da Luz, um caminho percorrido sob a orientação de Mentor, que personifica a Sabedoria, pilar fundamental da Ordem. Cada provação enfrentada pelo herói, seja a sedução do prazer ou a tentação do poder, reflete a experiência maçônica essencial de dominar as paixões, num trabalho incessante de desbastar a Pedra Bruta para aprimorar o caráter. A obra funciona como um manual sobre a arte do governo justo, ensinando que a verdadeira liderança, tanto de si mesmo quanto na sociedade, se baseia na virtude e no serviço. A descida de Telêmaco ao Tártaro para testemunhar as consequências dos atos dos maus governantes serve como um poderoso paralelo à Câmara de Reflexões, forçando uma meditação sobre a responsabilidade moral e a mortalidade.
Em determinado trecho de "Telêmaco" explora-se a futilidade do poder tirânico e a ilusão da felicidade baseada em prazeres materiais. A narrativa apresenta Nabofarzan, um rei babilônico que, em vida, desfrutou de poder absoluto, exigiu adoração divina e se afogou em luxos para mascarar um profundo vazio interior. Ele confessa a Telêmaco que nunca conheceu a paz, vivendo em constante agitação de desejos e medos, buscando uma "embriaguez" para fugir da amarga realidade de sua própria consciência. Sua experiência no além-mundo é a materialização da justiça poética e da inversão completa de seu status terreno.
A punição não é apenas sofrimento, mas uma humilhação didática: ele se torna escravo de seus próprios escravos. As zombarias deles servem como a voz da verdade que ele nunca ouviu, questionando sua pretensa divindade e expondo sua monstruosa falta de humanidade. Assim os ex-escravos vociferavam: – Nós também não éramos homens, tanto como tu? Como pudeste ser tão insensato para te considerar como um deus, não te lembrando de que pertencias à mesma raça dos homens?
Uma outra o insultava dizendo: – Tinhas razão de não querer que te considerassem como um homem, porque eras um monstro sem humanidade. – Outra lhe falava assim: Muito bem! Onde estão agora os teus aduladores? Não tens mais nada a dar, infeliz! E não podes mais fazer nenhum mal; eis que te tornaste escravo dos teus próprios escravos; os deuses demoram a fazer justiça, mas por fim a fazem. Ilustra-se assim que a verdadeira realeza reside na virtude e na paz interior, não no poder externo.
Outro trecho de "Telêmaco" oferece uma poderosa lição sobre a responsabilidade inerente à liderança e a natureza corrosiva da negligência no poder. A cena descreve a punição dos reis da Lídia, cujo crime não foi a tirania ativa, mas a escolha de uma vida de prazer e ociosidade em detrimento do trabalho árduo que a realeza exige para o bem-estar de seu povo.
Outro ponto que é dramatizado no diálogo é a recriminação mútua entre um pai e um filho. O filho acusa o pai de ser a origem de sua própria perdição, argumentando que foi através do exemplo paterno que ele aprendeu a amar o luxo, o orgulho e a adulação. Mais gravemente, ele aprendeu a desumanizar o povo, a enxergá-lo não como cidadãos a serem servidos, mas como animais de carga, existindo apenas para o conforto do monarca. Esta confissão revela como a corrupção de um líder envenena as gerações futuras, transformando a negligência em crueldade ativa. O castigo deles no além-túmulo é um reflexo direto de sua falha moral: um ciclo infernal de acusações, ódio e culpa, onde a incapacidade de assumir a responsabilidade os consome em uma raiva autodestrutiva, ilustrando que a falha no dever destrói não apenas o reino, mas a própria alma e os laços mais sagrados.
Referências:
FÉNELON, François de Salignac de La Mothe-. As aventuras de Telêmaco. Tradução de Francisco de Paula e Castro. São Paulo: Martin Claret, 2018.
KARDEC, Allan. O céu e o inferno: ou A justiça divina segundo o espiritismo. Tradução de J. Herculano Pires e Dmitri C. Fernandes. São Paulo: Paideia, 2020.

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