A compreensão mítica das civilizações sempre girou em torno do tripé fundamental: nascimento, morte e renascimento. Esse ciclo, longe de ser exclusivo de um povo ou época, manifesta-se universalmente nas religiões e tradições antigas e modernas. Do Egito faraônico, com Osíris e Ísis, aos mitos greco-romanos de Orfeu e Prosérpina, passando pela epopeia de Gilgamesh, as histórias sempre evocaram a transição entre vida e morte. Também nas tradições nórdicas, hindus e budistas encontramos narrativas semelhantes. No Ocidente, o Judaísmo, o Cristianismo e o Islã também incorporaram essa estrutura em figuras como Moisés, Cristo e Maomé. Essas narrativas podem ser vistas em duas categorias: as que celebram a morte como expiação e engrandecimento, e as que a compreendem como renovação cíclica. A Lenda de Hiram, no contexto maçônico, sintetiza tais tradições. Nela, a morte do mestre, pela traição de seus pares, evoca paralelos com Cristo, Osíris e outros heróis sacrificados. O corpo oculto e a busca por ele simbolizam a morte e a ressurreição como forças que regeneram a ordem espiritual e moral.
A morte não deve ser observada como fim, mas como transformação e continuidade da vida em outra dimensão. É uma mudança de estado, o abandono de um corpo que já não serve, para que o Espírito, em sua forma fluídica, prossiga sua jornada rumo a novas experiências e reencarnações. A natureza, em seu ciclo de renovação constante, demonstra que nada se perde, tudo se transforma, e a vida se manifesta em todos os cantos do universo. O homem, ao morrer, não é aniquilado; apenas atravessa um eclipse momentâneo, preparando-se para uma nova etapa. A morte é um parto espiritual, um renascimento, e nela pode haver nobreza quando vivida com serenidade e preparo moral. Os mortos não desaparecem: continuam próximos, amando, velando e inspirando os vivos, mesmo que invisíveis. O espiritismo ensina que as almas permanecem acessíveis ao pensamento e à oração, unindo corações além da matéria. Assim, a morte deixa de ser terror e se torna passagem necessária, descanso entre atos da vida infinita. Mesmo a Terra, um dia, terá fim, mas a humanidade seguirá sua evolução em mundos mais elevados.
Ao longo do tempo, a morte foi revestida por imagens lúgubres, especialmente pelo cerimonial das igrejas, que a associaram ao medo e ao sofrimento, enquanto o materialismo nada fez para dissipar esse temor. No entanto, assim como a noite antecede o amanhecer e o inverno prepara a primavera, a morte deve ser compreendida como passagem e renovação, jamais como fim absoluto. O medo que nutrimos nasce, em grande parte, da ideia de perda dos vínculos e alegrias, mas o espiritualismo ensina que a morte é ingresso em uma vida mais ampla, repleta de novas percepções, ampliadas de acordo com a preparação moral da alma. Assim, em vez de fugir da ideia da morte, é preciso encará-la como um fenômeno natural, indispensável ao equilíbrio da vida. Sem ela, o planeta se tornaria insuportável e superpovoado, e a velhice eterna transformaria a existência em monotonia estéril. A morte liberta o Espírito do corpo que cumpriu sua função, permitindo-lhe ascender em sua jornada. Quem crê em uma ordem superior não pode ver nela um mal, mas sim um elo essencial do ciclo vital, tão necessário quanto o nascimento. O universo, guiado pela justiça e pelo amor, destina-se à beleza, e a certeza de uma vida futura deve fortalecer nossa fé e nossos esforços. Cada morte que testemunhamos é uma lição profunda, que nos convida a viver melhor e a engrandecer constantemente o valor da alma.
Os ritos fúnebres, carregados de pompa e tristeza, alimentam no homem o medo da morte e a angústia do sepultamento, esquecendo que o corpo é apenas um invólucro transitório. Assim como vestes usadas, os corpos antigos já se transformaram em natureza, sem afetar a essência do ser. Sócrates, com sabedoria, lembrava que o “eu” verdadeiro não pode ser enterrado. Contudo, a imaginação humana e certos dogmas religiosos criaram visões de terrores eternos ou de solidão no além, gerando temor e incerteza. A revelação espiritual, ao contrário, ensina que a morte apenas liberta, mantendo nossa identidade e ampliando nossas possibilidades de evolução. Nada é definitivo: o progresso continua em todas as esferas. Onde vemos separação e dor, o mundo espiritual vê renascimento e chegada. Assim, a morte não é fim, mas transição, e os que partem tornam-se os vivos do céu, acolhidos com júbilo pelos que os esperam.Sob a ótica espiritual, o sofrimento físico associado a ela não é tão intenso quanto se imagina, pois, segundo os Espíritos, a transição geralmente ocorre de forma serena, semelhante a um adormecer.
A intensidade da agonia varia conforme os laços da alma com o corpo e a vida moral vivida: os justos sentem leveza, enquanto os violentos, criminosos e suicidas sofrem mais. Após a morte, muitos passam por um estado de perturbação, em que a consciência fica turva até recobrar lucidez no plano espiritual, experiência que pode ser tranquila ou dolorosa, conforme a evolução da alma. Nesse momento, pensamentos de amor e preces sinceras ajudam, ao passo que orações mecânicas têm pouco efeito. Observamos a superficialidade dos rituais fúnebres, ressaltando que o verdadeiro auxílio vem do afeto e da vibração dos vivos. Sobre mortes prematuras ou coletivas, elas seriam parte de ajustes espirituais ligados a vidas passadas, funcionando como reparação e aprendizado. Já o suicídio traz consequências graves: a alma entra em profunda perturbação, sofrendo repercussões dolorosas que se projetam em futuras encarnações, inclusive em doenças físicas e nervosas. Ao invés do alívio buscado, o suicida encontra a consciência atormentada e a necessidade de retomar as provas interrompidas. Assim, a vida deve ser encarada como instrumento de progresso, onde cada dificuldade é um remédio para nossas imperfeições, cabendo-nos paciência e coragem até o momento natural da partida.
Na vida após a morte as condições de bem-estar dependem do que fomos capazes de desenvolver em nós mesmos: desejos, apetites, tendências e virtudes. Não são os rituais finais que definem o destino da alma, mas sim a vida inteira, que constrói causas e efeitos que a morte não interrompe. Por isso, devemos abandonar os medos de infernos e castigos eternos, lembrando que aquele que nos acolheu ao nascer também nos prepara afeições no Além. O futuro espiritual é trabalho e progresso, não tormento. O verdadeiro juiz é a consciência, que, liberta do corpo, desperta e revela cada falta sem ilusões. É nesse momento que compreendemos, como disse F. Myers, que não há necessidade de purificação pelo fogo: o conhecimento de si mesmo é o único castigo e a única recompensa do homem. Assim, a justiça divina manifesta-se no íntimo da alma, que encontra na própria verdade interior a medida de sua dor ou de sua felicidade.
Enfim, em toda parte reina a harmonia, tanto no movimento dos mundos quanto no desenrolar dos destinos humanos. Cada espírito ocupa um lugar de acordo com suas aptidões: aos mais elevados cabem as grandes missões do gênio, enquanto às almas frágeis correspondem tarefas simples e inferiores. Assim, cada vida encontra naturalmente o espaço que lhe é legítimo na ordem universal. Cabe a nós, portanto, cultivar ciência e virtude para nos tornarmos aptos às obras grandiosas. Pela elevação moral, pela energia e pela bondade, podemos nos aproximar dos grandes Espíritos que trabalham em favor da humanidade. É nesse esforço que se encontra a verdadeira dignidade, pois o mérito espiritual nos conduz às alegrias sublimes reservadas aos que se superam. Nesse horizonte, a morte perde sua face temida e se transforma em bênção libertadora. Tal compreensão leva à serenidade, como a de Sócrates, que via na morte não o fim, mas a continuidade gloriosa da existência, a ponto de aceitá-la repetidas vezes com coragem e confiança.
Referências:
DENIS, L. O problema do ser, do destino e da dor. 32. ed. 15. imp. Brasília: FEB, 2022.
F. Myers - La Personnalité Humaine, pág. 418.
https://focoartereal.blogspot.com/2011/12/lenda-de-hiram.html

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