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Como a disciplina do pensamento pode guiar o Maçom?

 

Problema do ser, destino e dor Leon Denis

A disciplina do pensamento e a reforma do caráter são pilares fundamentais para o crescimento humano e espiritual. Vivemos diariamente rodeados de ideias, emoções e influências que moldam quem somos, mas raramente paramos para refletir sobre o poder que nossos pensamentos exercem em nossa vida. Cada ideia que nutrimos pode se transformar em luz ou sombra, em virtude ou em desordem, guiando nosso destino. Essa reflexão, presente em tradições espirituais e também na simbologia maçônica, nos convida a polir a “pedra bruta” de nosso ser, transformando-a em uma obra de harmonia e beleza. Cultivar pensamentos elevados, praticar a vigilância interior e buscar a serenidade nas provações são passos essenciais nessa jornada. É um caminho lento, mas capaz de nos conduzir à verdadeira liberdade moral. 

De acordo com o livro O Problema do Ser, do Destino e da Dor, de Léon Denis, no trecho “A disciplina do pensamento e a reforma do caráter”, o autor apresenta o pensamento como força criadora, destacando que ele não atua apenas em torno de nós, influenciando o ambiente e os semelhantes, mas sobretudo dentro de nós, moldando nossa essência, nossas palavras e nossas ações. Cada ideia concebida deixa marcas no corpo fluídico e no caráter, constituindo um campo energético que nos aproxima da luz ou da sombra, da harmonia ou da desordem. Por essa razão, é dito que somos aquilo que pensamos, desde que esses pensamentos sejam cultivados com persistência, vontade e clareza de direção. O pensamento elevado, quando orientado à sabedoria, ao dever e ao sacrifício, impregna lentamente a alma com as virtudes que evoca, transformando o ser em reflexo daquilo que busca.
Essa visão reforça a necessidade de vigilância interior: se aprendermos a fiscalizar nossos pensamentos, a discipliná-los e a guiá-los para fins nobres, nossos atos também se tornarão nobres, refletindo harmonia entre o interior e o exterior. O contrário, porém, gera falsidade e contradição: pensamentos maus escondidos sob atos aparentemente bons não resistem ao tempo e acabam por revelar o verdadeiro estado interior do indivíduo. Além disso, a leitura profunda, a meditação e a oração são descritas como práticas eficazes para direcionar a mente e criar hábitos de elevação espiritual. Ao invés de buscar o excesso de informações superficiais, o texto recomenda a reflexão silenciosa, que fortalece a inteligência, aprofunda a consciência e aproxima a alma de vibrações superiores.
Essa disciplina mental é também um exercício de autoconhecimento, pois o homem é chamado a mergulhar em si mesmo, em regiões profundas que muitas vezes permanecem intocadas, para despertar tesouros espirituais ocultos. A dor, as provações e as perdas aparecem como instrumentos desse despertar, porque obrigam o ser a questionar a fugacidade do mundo externo e a voltar-se para a essência imortal. Nesse processo, cada sofrimento pode se tornar uma semente de virtude e beleza, se for bem aproveitado. A vida, então, deixa de ser uma sequência de acasos e passa a ser compreendida como campo de aprendizado e evolução.
Essa concepção encontra grande ressonância nos símbolos da Maçonaria. O trabalho interior é comparável ao polimento da pedra bruta, que simboliza o homem imperfeito, carregado de paixões e ilusões. À medida que o iniciado aprende a disciplinar seus pensamentos e reformar seu caráter, ele vai transformando essa pedra irregular em pedra polida, apta a ser encaixada no Templo simbólico da humanidade. O maçom entende que seu templo verdadeiro não está fora, mas dentro de si, e cada ato consciente de autossuperação é um tijolo colocado nessa construção invisível. A reflexão maçônica ensina ainda que não se pode edificar nada sólido sem fundamento moral, assim como o texto lembra que atos bons só são legítimos se nascem de pensamentos verdadeiramente bons. Assim escreveu León Denis: “A fiscalização dos pensamentos implica a fiscalização dos atos, porque, se uns são bons, os outros sê-lo-ão igualmente, e todo o nosso procedimento achar-se-á regulado por uma concatenação harmônica. Ao passo que, se nossos atos são bons e nossos pensamentos maus, apenas haverá uma falsa aparência do bem e continuaremos a trazer em nós um foco malfazejo, cujas influências, mais cedo ou mais tarde, derramar-se-ão fatalmente sobre nossa vida”.

O silêncio, exaltado como fonte de inspiração, também é um valor cultivado no simbolismo maçônico. Assim como a meditação prepara a mente para receber influxos elevados, a prática do silêncio ritualístico nas Lojas Maçônicas convida os irmãos à introspecção, ao recolhimento e à escuta das vozes mais profundas do espírito. A ideia de que há uma vida oculta que se mistura à nossa também encontra paralelo no pensamento maçônico, onde o iniciado é lembrado de que forças invisíveis, tradições, símbolos e ideais acompanham seu trabalho, inspirando-o na busca pela verdade.

Outro ponto de convergência é a tolerância com os semelhantes. O texto ensina que não devemos exigir dos outros aquilo que ainda não podem dar, pois todos se encontram em diferentes estágios da jornada evolutiva. Na Maçonaria, esse princípio é vivido pela fraternidade universal, que reconhece em cada homem um irmão em progresso, digno de respeito e compreensão. Ser severo consigo mesmo e indulgente com os demais é tanto um conselho espiritual quanto uma norma de convivência maçônica.

Ainda mais, a aceitação serena das provações como meios de reparação e aperfeiçoamento reflete a atitude do iniciado que, ao subir os degraus simbólicos dos graus, enfrenta provas morais e espirituais que lapidam sua alma. A confiança no futuro, a paciência diante das dificuldades e a serenidade diante das perdas são virtudes que elevam o ser acima das contingências da vida. O verdadeiro sábio, afirma o autor, cria para si um refúgio interior, imune às tempestades do mundo. Essa ideia ecoa no ensinamento maçônico de que a luz da verdade e da virtude deve iluminar o coração do iniciado, independentemente das sombras externas.

O texto também adverte sobre o perigo das ilusões e da dispersão, mostrando que muitas vezes buscamos fora o que já está dentro. Esse ensinamento se alinha ao ideal maçônico de que a verdadeira riqueza não está nas glórias ou honrarias externas, mas na lapidação interior que dá forma a uma consciência sólida e luminosa. A Maçonaria, como escola simbólica e prática, mostra que o homem só se liberta do caos de pensamentos confusos quando encontra em si mesmo um centro firme, construído sobre a tríade da sabedoria, da força e da beleza.
Por fim a disciplina do pensamento e a reforma do caráter são apresentadas como caminhos seguros para a iluminação da alma, a conquista da verdadeira felicidade e a aproximação com o divino. Assim como a Maçonaria propõe ao iniciado um trabalho constante e paciente sobre si mesmo, lembrando que essa obra é vagarosa, mas destinada a transformar o ser em construtor consciente da verdade e da justiça. Com pensamentos elevados, atos coerentes e caráter disciplinado, o homem se torna capaz de edificar, dentro e fora de si, o templo da fraternidade e da perfeição, que é o ideal supremo da vida espiritual e também da tradição maçônica.

Referência: 

DENIS, L. O problema do ser, do destino e da dor. 32. ed. 15. imp. Brasília: FEB, 2022.


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