Quem possui lucidez não exalta o talento, nem evidencia a inabilidade; simplesmente analisa os fatos na sua totalidade, utilizando os “olhos da equanimidade", ou seja, do entendimento, da imparcialidade e da moderação.
Narra o Antigo Testamento que a divisão atingiu por inteiro a consciência dos dois primeiros seres humanos quando experimentaram o fruto da Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal. Eles viviam, segundo a narrativa bíblica, unos com toda a criação: não reconheciam ainda suas diferenças, não viviam na dualidade do certo e do errado, visto que permaneciam num estado de unidade consciencial.
As tradições religiosas hebraicas criaram uma enorme cisão entre a alma (o bem) e o corpo (o mal) quando registraram nos seus textos mitológicos a Queda do Paraíso o homem abandona o Jardim do Éden (unidade universal) e peca, isto é, atinge a polaridade ou o poder da discriminação, o efeito de separar, segregar, pôr à parte.
No entanto, a igreja cristã primitiva reconhecia que toda criatura traz dentro de si aspectos positivos e negativos. Paulo de Tarso disse: "Não faço o bem que eu quero, mas pratico o mal que não quero."
Essas são palavras de uma criatura que possuía um excelente nível de lucidez mental. O Apóstolo dos Gentios procurava manter a sua integridade ou unidade, admitindo as faces desconhecidas de seu mundo interior. Sabia que não se iluminaria se não as aceitasse e suplicava fervorosamente ao Criador a orientação necessária sobre esses estados íntimos da alma.
Negar o lado escuro de nossa personalidade, ou não lhe dar importância, é subestimar a sutileza de seu poder atuante em nossos comportamentos e atitudes. É imprescindível admitir nossa face desconhecida, pois só podemos nos redimir ou transformar até onde conseguimos nos ver.
Utilizamos o mecanismo da repressão para nos desviar da nossa própria realidade; desprezamos o nosso lado frágil e nos distanciamos das verdadeiras intenções egoísticas que mobilizam nossas condutas diárias. Passamos, a partir daí, a construir uma auto-imagem de perfeição que nos torna "falsos realizadores do bem" ou "profissionais do altruísmo".
Por diversas vezes, educadores intolerantes nos incutiram pontos de vista alicerçados sobre um idealismo moralista, ignorando a unicidade do ser humano e as particularidades e complexidades das situações existenciais. Induziram-nos a negar, de forma determinante, todas as coisas que supostamente fossem contrárias à generosidade, mansuetude, candura e gentileza. Tudo que foi seccionado ou fragmentado em nossa intimidade passa a fazer parte de nossa sombra.
Nenhum processo de crescimento é possível até que a sombra seja adequadamente confrontada. Confrontá-la significa examiná-la com atenção e admiti-la plenamente. A denominação junguiana sombra refere-se às partes desconhecidas da personalidade que foram banidas da realidade, pois o homem não quer vê-las em si mesmo.
A melhor postura para nos renovarmos no bem e colaborarmos verdadeiramente com a transformação espiritual daqueles que nos rodeiam é lembrarmo-nos de nossa condição de almas em aprendizagem e permanecermos alicerçados na realidade daquilo que somos e podemos fazer, e não na ilusão do que deveríamos ser ou fazer.
Jesus Cristo nos convida a "amar os inimigos", e Jung, colaborando com os ensinos cristãos, nos conduz a uma reflexão profunda e lúcida a respeito desse tema. Ele nos solicita a perceber e, ao mesmo tempo, a amar os inimigos internos, o que pode não afastar os inimigos externos, mas pode melhorar e transformar nossos atos e atitudes para com eles.
É comum pensarmos existir somente a sombra negativa aspectos inadequados da personalidade que negamos ou não aceitamos em nós. No entanto, há também a sombra positiva, tudo aquilo que desconhecemos sobre nossas conquistas, valores e potenciais inatos e que não somos ainda capazes de identificar ou desenvolver. Por exemplo: em muitas ocasiões, podemos encontrar na sombra de um malfeitor o seu lado humanitário completa- mente ignorado por ele; e na sombra de um benfeitor inúmeros aspectos negativos da mesma forma desconhecidos dele.
A sombra não é por si só desestruturadora; aliás, o que mais nos desorganiza psiquicamente é não vermos as coisas interiores e exteriores como um "conjunto" ou "todo" os aspectos positivos e negativos que existem em tudo. Os Benfeitores Espirituais nos ensinam que o Espírito "quanto menos puro ele for, mais sua visão é limitada; somente os Espíritos superiores podem ter visão de conjunto." Afirmam ainda que nas Almas Elevadas há "uma espécie de lucidez universal que se estende a tudo, envolve, a uma só vez, o espaço, o tempo e as coisas e para a qual não há trevas nem obstáculos materiais."
Essa "lucidez universal a que eles se referem tem profunda relação com a integridade, pois equilibra o íntimo numa unicidade harmoniosa. Quem possui lucidez não exalta o talento, nem evidencia a inabilidade; simplesmente analisa os fatos na sua totalidade, utilizando os "olhos da equanimidade", ou seja, do entendimento, da imparcialidade e da moderação.
Integridade é inteireza, plenitude, estado ou característica daquele que reconhece a totalidade da vida dentro e fora de si mesmo, com toda a sua validade, equilíbrio e proporção harmoniosa.
A consciência lúcida acerca da sombra impulsiona a criatura a não mais buscar uma vítima: alguém ou alguma coisa para acusar e atacar. Não mais precisando ser impecavelmente correta e bondosa, não fará dos outros alvo de seus infortúnios. Apenas quando nossas fragilidades deixarem de ser demonizadas é que seremos levados a lidar com elas em termos de experiência evolutiva.
A lucidez dá integridade ao homem, mostrando-lhe que deve aceitar a si mesmo. Ao mesmo tempo, faculta-lhe uma visão clara que o impedirá de projetar seus pontos fracos nos outros, o que facilitará ampla compreensão dos que com ele convivem.
Referência:
FRANCISCO do Espírito Santo Neto. Prazeres da alma: uma reflexão sobre os potenciais humanos. Ditado por Hammed. Catanduva, SP: Boa Nova, 2003.

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