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A Sombra e o Templo: Jung, Espiritismo e Maçonaria

 

sombras Jung

A sombra, conceito central na obra de Carl Gustav Jung, representa o lado oculto da personalidade e revela-se como um dos mais profundos desafios do autoconhecimento. Presente tanto na psicoterapia quanto nas práticas simbólicas da Maçonaria, ela é o reflexo do inconsciente pessoal e coletivo, contendo aspectos reprimidos, mas também potencialidades esquecidas. Confrontá-la exige coragem moral e disposição para o mergulho interior. Nas reuniões maçônicas, essa dinâmica emerge discretamente, mas com força transformadora. Reconhecer e integrar a sombra é mais do que um exercício psicológico: é um processo iniciático e espiritual, conduzindo assim à reconciliação interior e à expansão da consciência. Explorá-la é enfrentar a si mesmo na busca da verdadeira essência. Eis um texto de Divaldo Franco, relacionado ao assunto: 

Após a descida ao poço da depressão, que lhe abriu as portas do entendimento profundo a respeito da existência, Jung adotou o conceito dos arquétipos, mediante a utilização da palavra usada por alguns cristãos primitivos entre os quais Santo Irineu. 

 Ao abrir o leque de legítimas concepções em torno do ser humano, ao encontrar denominações para os muitos conflitos que o aturdem e infelicitam, deu um grande destaque à Sombra, que ocupa um lugar de alta significação na sua psicologia analítica. A Sombra não é apenas o que se encontra nos arquivos do inconsciente e que responde por muitos dos conflitos que aturdem o ser humano, mas é o aguilhão que gera desconforto ao bem-estar, que produz instabilidade aos valores conscientes, e, quase sempre, conduz elementos que fazem parte das tradições culturais e das construções egóicas. 

De igual maneira constata-se que no inconsciente, área em que se refugia a Sombra, não se encontram somente as heranças do mal, os instintos agressivos, mas também valores positivos que facultam ações nobilitantes e respondem pela criatividade, pelas tendências artísticas e de outros conteúdos. Não será o ato de reconhecer a Sombra que a vida do indivíduo se transformará a toque de mágica e que tudo se modificará para melhor, isto porque se encontra ínsita em todos os comportamentos, realizações mesmo as de mais elevado teor. 

Cada ser é portador da sua Sombra individual, que possui todas as suas características, faz parte da coletiva, que também se expressa quando as circunstâncias assim o permitem. Graças ao Espiritismo, pode-se compreender com facilidade todo o vigor da Sombra na existência humana, recorrendo-se ao impositivo das reencarnações, em cujas vivências foram praticados atos reprocháveis ou primários do instinto, mas também sociáveis e relevantes, que se arquivaram nos painéis delicados do Self. A maioria, portanto, dos conflitos que têm origem na Sombra, possui as suas raízes na teia vigorosa do passado espiritual de cada ser que resuma no Self atual de maneira rigorosa. 

Outras censuráveis ocorrências psicológicas e morais que foram recalcadas naquelas anteriores oportunidades, ressurgem, inesperadamente, impõem-se ao ego e o levam a deslizes e condutas perturbadores, alienantes. Pergunta-se, com bases na lógica, o porquê de pessoas boas praticarem atos maus, demonstrando insensatez, volúpia e violência, e a resposta encontra-se na Sombra perversa, que é a responsável. É natural que o Self deseje esmagar o ego, a fim de anular os arquétipos doentios que exterioriza. Esse comportamento, porém, resulta inócuo, quando não prejudicial, em razão de um fenômeno natural que estabelece como legítimo que tudo aquilo que é recalcado sempre volta com mais força e se impõe com necessidade inadiável de uma catarse libertadora. 

O enfrentamento do Self com a Sombra deve ser, inicialmente, o da sua identificação, para depois proceder ao processo de diluição do seu impositivo. Trabalhar o esforço íntimo pelo aprimoramento moral, resolver-se por desmascarar a Sombra e eliminá-la com a luz do conhecimento lúcido, é o mecanismo saudável para os resultados terapêuticos almejados. 

O Apóstolo Paulo, cujo vigor moral é inconteste, escreveu aos romanos, no cap. 7, vers. 19 e 20: Pois não faço o bem que quero, mas faço o mal que não quero, esse pratico. Mas se eu faço aquilo que não quero, já não sou eu o que faço, mas sim o pecado que em mim habita. Esta é uma demonstração clara de que o pecado nele era a herança de algo que o impelia, latente, portanto, procedente de experiência anterior, que identificava como dentro do conceito formalista da cultura religiosa do seu tempo. Ao identificar a Sombra, o pecado, em predomínio em sua natureza humana, rendia-se-lhe, mas não lhe permitia dominá-lo, e esforçava-se por diluí-la, de forma a continuar no bem que queria. Isto ocorre, porque, nas suas máscaras, a Sombra projeta ao ego as ações do bem, sem que o mesmo realmente saiba o de que se trata. 

Quando isso ocorre, aparece em manifestações graves, como complexo de poder, presunção, interesse pela retribuição, exigência de reconhecimento, imagos recalcadas, disputas em batalhas renhidas e mal disfarçadas, em ciúmes... O bem realizado em tais condições faz mal, porque indispõe os seus realizadores contra os outros ou humilha aos que pretende auxiliar, gera dificuldades nos relacionamentos e contendas. A Sombra é manifestação inconsciente dos arquivos do Self, que automaticamente surpreende, inclusive, o indivíduo que a projeta. Quanto mais acuidade para discernir o bem do mal torna-se indispensável para que a ação revestida, às vezes, de bons propósitos, não se converta em perturbação e dano. 

A Sombra mistura-se ou expressa-se como libido afligente, qual acontecia com Santo Antão que, na juventude, viu o busto desnudo de uma jovem escrava num poço e passou a ser açodado pelo desejo sexual. Posteriormente, ao tornar-se monge e buscar o refúgio no monte Pispir, no Egito, para vencer a tentação, o pecado, não conseguia libertar-se da visão que procurava recalcar. Atirava-se contra cardos pontiagudos, em alucinada flagelação, e sentia os demônios atormentando-o... Certamente, esses demônios eram o normal desejo carnal que ele lutava por suprimir, ao ignorar a força e o impositivo biológico. 

São João da Cruz viveu a longa noite escura da alma, até alcançar o númen pelo Self e autoplenificar-se. Santo Agostinho de Hipona, que vivera experiências sexuais antes da sua conversão ao Cristianismo, pedia a Deus que o tornasse casto, mas não imediatamente, sob a força implacável da Sombra. A Sombra permaneceu-lhe dominadora enquanto lutava contra a sua presença... O autoconhecimento que se deriva da autoanálise, contribui para que a Sombra se transforme em instrumento de harmonia e satisfação no eixo ego-Self, sem tormentos nem castrações. Graças à psicologia espírita, que estuda o ser antes da fecundação e depois da desencarnação, o Self passa a significar o ser real que transita por várias formas orgânicas conduzindo no seu inconsciente individual e coletivo as experiências vivenciadas em cada etapa até atingir o estado numinoso.

Referências: 

MAXENCE, Jean-Luc. Jung é a Aurora da Maçonaria: O Pensamento Junguiano na Ordem Maçônica. São Paulo: Madras, 2004.

FRANCO, Divaldo Pereira; ÂNGELIS, Joanna de. Psicologia da gratidão. Salvador: Leal, 2011.

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