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O maçom que não se irritava.

 

The man who never lost his temper

Este texto, cujo título é “o Homem que não se irritava”, foi adaptado para o contexto maçônico e publicado neste espaço dedicado à reflexão e ao aprimoramento moral dos Irmãos da Ordem. Em sua versão original, a narrativa integra a obra Contos e Apólogos, de autoria espiritual de Irmão X, psicografada por Francisco Cândido Xavier, o querido Chico Xavier, um dos mais importantes médiuns do espiritismo. Toda a profundidade filosófica e o ensinamento sobre a paciência e o autodomínio presentes no texto são frutos da sabedoria que o autor espiritual soube transmitir com a delicadeza e a simplicidade que marcaram toda a obra de Chico Xavier.​​​​​​​​​​​​​​​​


O IRMÃO QUE NÃO SE IRRITAVA


Existiu um Venerável Mestre, amigo da sabedoria, que, depois de grande trabalho para subjugar a natureza inferior, convidou um sábio Irmão, filósofo,  para socorrê-lo no aperfeiçoamento da palavra. Conseguira indiscutível progresso na arte de sublimar-se, tal como ensinam os antigos rituais da Ordem. Fizera-se portador de primorosa cultura iniciática e, tanto no Templo, quanto na vida profana, caracterizava-se por largos gestos de bondade e inteligência. Praticava quanto lhe era possível para exercer a justiça, segundo os padrões da reta consciência que aprendera ao percorrer os graus da sublime Ordem, e demonstrava inexcedível carinho na defesa e proteção de seus Irmãos e da sociedade, através de reiteradas obras de beneficência, a fim de que as pessoas menos favorecidas pela fortuna não sofressem frio ou fome. 


Não sabia acumular tesouros exclusivamente para si e, em razão disso, obedecendo às virtudes sociais de que se fizera o exemplo vivo, como convém a todo maçom que honra seu avental, instituíra escolas e abrigos e incentivara o trabalho e a indústria, desejando que todos os profanos, ainda os mais humildes, encontrassem acesso à educação e à prosperidade.


No círculo das manifestações pessoais, contudo, o valoroso Venerável se sentia atrasado e hesitante.

Não sabia disfarçar a cólera, não continha a franqueza rude e nem sopitava o mau humor, vícios que o Compasso e o Esquadro deveriam há muito ter corrigido.

Admirado e querido pelas qualidades sublimes que pudera fixar na personalidade, sofria, no entanto, a mágoa e a desconfiança de muitos Irmãos que passaram a temer-lhe a frase contundente, proferida ali onde deveria reinar a paz, o amor e a harmonia.


Interessado, porém, na própria melhoria, dever primeiro de todo iniciado, solicitou ao sábio Irmão que lhe acompanhasse a lide cotidiana, dentro e fora do Templo.

Quando se descontrolava, caindo nas amargas consequências do verbo impensado, o orientador observava, com a humildade de um Aprendiz diante do Livro da Lei:

— Venerável Irmão, tenha paciência e continue lavrando a pedra bruta. A expressão serena e sábia revela grandeza interior que reclama tempo para ser devidamente polida. Quem alcança a ciência de falar, pode conviver com os construtores de catedrais, porque a palavra é, sem dúvida, a continuação de nós mesmos, e não por acaso a Ordem a guarda como um de seus maiores mistérios.


O Venerável não se conformava e, em desespero passivo, confiava-se a rigoroso silêncio, que prejudicava consideravelmente os trabalhos da Loja e a condução dos Irmãos sob sua responsabilidade.

De semelhante posição vinha roubá-lo o sábio Irmão, advertindo, respeitoso:

— Amado Venerável, a extrema quietude pode traduzir traição aos nossos deveres maçônicos. A pretexto de nos reformarmos espiritualmente, não será lícito desprezar os nossos compromissos com o progresso comum e com a edificação do Templo da Humanidade. Fale sempre e não desdenhe agir! O verbo é a projeção do pensamento criador, e foi pela Palavra que o Grande Arquiteto do Universo ordenou o universo a partir do caos.


O Venerável voltava a conduzir os trabalhos, beneficiando a Loja e os Irmãos que lhe cabia dirigir, mas lá chegava outro momento em que se perdia na indignação excessiva, humilhando e ferindo Companheiros e Aprendizes a que desejaria ajudar sinceramente, esquecendo que, no Templo, todos os Irmãos trabalham lado a lado sem distinção de grau na dignidade humana.


Lamentando-se, aflito, vinha o sábio Irmão aconselhá-lo, afirmando, prestimoso:

— Estimado Venerável, tenha paciência consigo mesmo. O reajustamento da alma não é obra para um dia. Prossiga, esforçando-se. Toda realização pede o concurso abençoado das horas… O templo deixaria de existir sem a congregação das pedras… Guarde calma, muita calma, e não desanime. É isso o que nos ensinam os antigos Mestres desde os tempos de Hiram Abiff.


O Venerável, no entanto, descoroçoado, depois de regular experimentação com o sábio Irmão, dispensou-o de sua orientação e, em conversa fraternal, pediu a dois Irmãos de sua confiança que, por consideração e espírito de fraternidade, percorressem as Lojas da região em busca de algum Irmão incapaz de se irritar. Estes, movidos pelo genuíno amor fraterno que une os membros da Ordem, aceitaram de bom grado a incumbência, sem qualquer obrigação além da própria vontade de ajudar.


Os mensageiros iniciaram as investigações entre Aprendizes, Companheiros e Mestres, mas impacientavam-se desiludidos. O Irmão que observavam ponderado no Templo era colérico no lar. Quem se revelava gentil em casa, costumava irar-se nas sessões de câmara. Alguns se mostravam distintos e agradáveis junto dos Irmãos de grau elevado, todavia, eram azedos no trato com os Aprendizes. Diversos exibiam formosa máscara de serenidade com os profanos, no entanto, dirigiam-se aos familiares com deplorável aspereza, esquecendo que a Maçonaria começa a ser praticada na soleira da própria casa.


Depois de trinta dias de porfiada pesquisa por Orientes e Lojas, descobriram, jubilosos, o Irmão que nunca se exasperava.

Seguiram-no, cuidadosamente, em toda parte.

Nunca falava alto e mantinha silêncio comovedor, no Templo e fora dele, com Irmãos e profanos.

Durante quatro semanas foi examinado sob atenção vigilante, como convém a quem passa pelos escrutínios da Ordem, não perdendo um til na conduta irrepreensível.

Trabalhava, movimentava-se, alimentava-se e atendia aos menores deveres, imperturbável como um Mestre diante da morte de Hiram.

Apressaram-se os mensageiros em levar a boa-nova ao Venerável, e este, satisfeito, convocou os Oficiais e os Irmãos da Loja para receber o personagem admirável com toda a dignidade ritual que lhe era devido.


O Irmão venturoso foi trazido ao Oriente, entretanto, quando o Venerável lhe dirigiu a palavra, esperando encontrar um anjo de avental, verificou, sob indefinível assombro, que o Irmão incapaz de irritar-se, era mudo. Havia perdido a voz anos antes, em razão de uma grave enfermidade, tornando-se mudo já depois de iniciado e de ter percorrido os graus da Ordem.


Sob o respeito manifesto de toda a Loja, o Venerável sorriu, desapontado, e procurou o sábio Irmão, pedindo-lhe humildemente que retomasse sua orientação fraterna. Resignava-se, enfim, a ter paciência consigo mesmo, compreendendo que o verdadeiro aprimoramento não se encontra no outro, mas na disposição sincera de cada um em continuar lavrando a própria pedra bruta, dia após dia, com perseverança e humildade.


Texto original: 


http://www.oconsolador.com.br/linkfixo/bibliotecavirtual/chicoxavier/contoseapologos.pdf


Referência:


IRMÃO X (Espírito). Contos e apólogos. Psicografado por Francisco Cândido Xavier. Brasília, DF: FEB, 2013.


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