A abertura de coração, encontra profunda ressonância nos estudos e na prática maçônica, especialmente quando se considera o trabalho interior que caracteriza o aperfeiçoamento do iniciado. O ato de abrir o coração corresponde ao despojamento progressivo do egoísmo e do orgulho, vícios que os rituais simbólicos identificam como os principais obstáculos à luz. O maçom é convidado a polir a pedra bruta de si mesmo, removendo camadas de vaidade e reserva emocional que o mantém fechado aos irmãos e à harmonia universal.
O sentido amplo de abertura, manter-se sintonizado com as vibrações elevadas e com o bem, equivale ao alinhamento com o Grande Arquiteto do Universo e à busca constante da sintonia com as leis divinas, princípio central do pensamento maçônico tradicional.
Já o sentido estrito, que envolve expressar sentimentos com sinceridade, franqueza e confiança, dialoga diretamente com as virtudes cardeais da Ordem: a verdade (falar sem hipocrisia), a fraternidade (comunicar-se com afabilidade) e a caridade (ser atencioso e benevolente para com todos).
Ser afável e comunicativo; na loja, esses mesmos traços são esperados do maçom: o semblante sereno, a palavra cortês e o trato igualitário manifestam o equilíbrio interior e o domínio das paixões, qualidades cultivadas nos graus simbólicos.
O mau humor constante e o semblante sombrio são vistos como sinais de desarmonia; na perspectiva maçônica, tais estados revelam a pedra ainda mal lavrada, indicando necessidade urgente de trabalho sobre si.
A timidez, apresentada como desvio a ser tratado pela alegria, encontra paralelo na superação do medo e da reserva excessiva, barreiras que impedem o maçom de cumprir plenamente seus deveres para com a cadeia fraterna e de manifestar a caridade ativa.
A máxima de que ninguém precisa de mestre para aprender a amar, bastando querer fazê-lo, ecoa o ensinamento maçônico de que a iniciação externa apenas desperta potenciais já existentes; o verdadeiro mestre é a consciência reta e o esforço voluntário de reforma íntima.
A reforma íntima, constitui o cerne do caminho maçônico: transformar valores negativos em positivos, substituir a carranca pela serenidade, cultivar a virtude simples do sorriso, tudo isso é trabalho de aperfeiçoamento moral que os rituais estimulam em cada grau.
Amar os inimigos, ressoa com o ideal maçônico de tolerância universal e de fraternidade sem exclusões. Quem não refizer seus laços rompidos na jornada terrena, um dia defrontar-se-á com seu inimigo no plano espiritual. O reencontro e o renascimento da afetividade haverá de existir para o resgate completo do ser. Por que esperar tanto tempo?
Dar amor sem esperar retribuição, sem humilhação, mas com elevação de espírito, reflete a prática da caridade desinteressada, uma das colunas fundamentais da Maçonaria especulativa.
Perseverar no amor mesmo diante da recusa. É possível que haja inimigo que não aceite o amor doado, com sinceridade e insistência. A essa situação o mais indicado é o cultivo da paciência e da resignação. Não deve haver revolta contra aquele que ainda não está preparado a perdoar como deveria; afinal, quem refuta amor é doente da alma.
Os inimigos ocultos, neutralizados pelo bom exemplo e pelas vibrações positivas, lembram o escudo invisível que o iniciado constrói com retidão de conduta, harmonia interior e ligação com as forças superiores. Logo, inimizades gratuitas e unilaterais, porventura existentes, serão gradativamente extintas pelo bom exemplo.
Lembremos que a advertência contra o uso da inimizade como pretexto para compensações psicológicas e escapes encontra correspondência na exigência maçônica de autoconhecimento rigoroso, onde o iniciado deve identificar e curar as inclinações tirânicas e rancorosas que habitam seu próprio templo interior. Pessoas de espírito tirano, cujo rancor é o mote de suas existências, cultivam inimigos apenas para contentar o seu âmago desequilibrado. Vivem melhor se acreditarem que estão em luta contra alguém. São enfermos da alma. Merecem tratamento, e o melhor deles é o amor.
A abertura de coração, enfim, não é apenas um ideal cristão; ela se apresenta como um caminho de realização maçônica, onde o amor fraterno, a reforma íntima e a superação do egoísmo se convertem no verdadeiro esquadro e compasso da alma.
Referência:
GLASER, Abel. Fundamentos da reforma íntima. Pelo Espírito Cairbar Schutel. 11. ed. Matão: Casa Editora O Clarim, maio 2011.

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