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A Justiça Maçônica: Entre o Compasso e o Esquadro

Alvorada cristã
A Maçonaria, como instituição milenar, fundamenta-se nos pilares da Justiça, Fraternidade e igualdade. Seus princípios transcendem as meras leis dos homens, buscando equilibrar a balança não apenas pela letra da norma, mas pelo espírito que a anima. A justiça maçônica remete ao Compasso, que é o símbolo do espírito, significando tudo aquilo que não seja matéria, como o pensamento, sabedoria, enquanto que o Esquadro é o símbolo da ação do homem sobre a matéria, refletindo nas boas ações, equidade, justiça e moralidade.  Esta estória presente no livro   Alvorada Cristã, no cap.8, ditada pelo espírito Neio Lúcio, psicografada pelo médium Francisco Cândido Xavier, publicado pela Federação Espírita Brasileira, é uma alegoria poderosa sobre os valores que todo maçom deve cultivar: a equidade, a compreensão das fragilidades humanas e a responsabilidade dos privilegiados. Na trama de Zorobabel e Jonatan, vemos refletidos os ensinamentos da Sublime Ordem, onde o juiz Eliaquim ben Jefté, como um verdadeiro Mestre da Lei, não se limita a julgar pelas aparências, mas aprofunda-se na essência do conflito. Ele compreende que a Justiça, quando desprovida de misericórdia e discernimento, torna-se mera tirania. Assim age a Maçonaria: não condena o homem por seus erros isolados, mas examina as circunstâncias que o levaram a agir, buscando sempre reeducar e elevar, nunca apenas punir. Eis a estória:

                                                                         *

Ao tribunal de Eliaquim ben Jefté, juiz respeitável e sábio, compareceu o negociante Jonatan ben Caiar arrastando Zorobabel, miserável mendigo.

— Este homem — clamou o comerciante, furioso — impingiu-me um logro de vastas propor­ções! Vendeu-me um colar de pérolas falsas, por cinco peças de ouro, asseverando que valiam cinco mil. Comprei as jóias, crendo haver realizado excelente negócio, descobrindo, afinal, que o preço delas é inferior a dois ovos cozidos. Reclamei diretamente contra o mistificador, mas este vagabundo já me gastou o rico dinheiro. Exijo para ele as penas da justiça! É ladrão reles e condenável!...

O magistrado, porém, que cultuava a Justiça Suprema, recomendou que o acusado se pronunciasse por sua vez:

— Grande juiz — disse ele, timidamente —, reconheço haver transgredido os regulamentos que nos regem. Entretanto, tenho meus dois filhos estirados na cama e debalde procuro trabalho digno, pois mo recusam sempre, a pretexto de minha idade e de minha pobre apresentação. Realmente, enganei o meu próximo e sou criminoso, mas prometo resgatar meu débito logo que puder.

O juiz meditou longamente e sentenciou:

— Para Zorobabel, o mendigo, cinco bastonadas entre quatro paredes, a fim de que aprenda a sofrer honestamente, sem assalto à bolsa dos semelhantes, e, para Jonatan, o mercador, vinte bastonadas, na praça pública, de modo a não mais abusar dos humildes.

O negociante protestou, revoltado:

— Que ouço? Sou vítima de um ladrão e devo pagar por faltas que não cometi? Iniquidade! iniquidade!...

O magistrado, todavia, bateu forte com um martelo sobre a mesa, chamando a atenção dos presentes, e esclareceu, em voz alta:

— Jonatan ben Caiar, a justiça verdadeira não reside na Terra para examinar as aparências. Zorobabel, o vagabundo, chefe de uma família infeliz, furtou-te cinco peças de ouro, no propósito de socorrer os filhos desventurados, porém, tu, por tua vez, tentaste roubar dele, valendo-te do infortúnio que o persegue, apoderando-te de um objeto que acreditaste valer cinco mil peças de ouro ao preço irrisório de cinco. 

Quem é mais nocivo à sociedade, perante Deus: o mísero esfomeado que rouba um pão, a fim de matar a fome dos filhos, ou o homem já atendido pela Bondade do Eterno, com os dons da fortuna e da habilidade, que absorve para si uma padaria inteira, a fim de abusar, cal­culadamente, da alheia indigência? Quem furta por necessidade pode ser um louco, mas quem acumula riquezas, indefinidamente, sem movimentá-las no trabalho construtivo ou na prática do bem, com absoluta despreocupação pelas angústias dos pobres, muita vez passará por inteligente e sagaz, aos olhos daqueles que, no mundo, adormeceram no egoísmo e na ambição desmedida, mas é malfeitor diante do Todo-Poderoso que nos julgará a todos, no momento oportuno.

E, sob a vigilância de guardas robustos, Zorobabel tomou cinco bastonadas em sala de portas lacradas, para aprender a sofrer sem roubar, e Jonatan apanhou vinte, na via pública, de modo a não mais explorar, sem escrúpulos, a miséria, a simplicidade e a confiança do povo.

                                                                            *
Este enredo ecoa os princípios da Fraternidade Universal: ninguém é tão rico que não precise de compaixão, nem tão pobre que não mereça respeito. O verdadeiro maçom, ao erguer seu templo interior, deve lembrar-se de que a Justiça sem Amor é vazia, e a Caridade sem Justiça é incompleta. Assim ensina a Maçonaria, que é muito mais do que uma sociedade secreta/discreta. É um caminho de autodescoberta, uma comunidade de buscadores da verdade e defensores dos valores universais. Seus princípios de liberdade, igualdade, fraternidade, justiça, verdade, honra e progresso são um facho guia para todos os que desejam fazer parte desta nobre jornada.
Que este conto, enfim, sirva de reflexão não apenas sobre as leis dos homens, mas sobre a Lei Maior, aquela que emana do Grande Arquiteto do Universo e que nos convida a construir um mundo mais justo.

 Referência:

LÚCIO, Neio (Espírito); XAVIER, Francisco Cândido (Médium). Alvorada Cristã. 16º. ed. Brasília: FEB Editora, 2024.








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