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MAÇONARIA E RELIGIÃO, BREVE HISTÓRICO. (FINAL)

 


Igreja e maçonaria

Maçonaria assumiu uma postura filosófica-ideológica ao se associar ao Movimento lluminista, assentado ideario os três pilares de "liberdade, igualdade e fraternidade”, movimento este que serviu de sustentação ou de ideário para as grandes revoluções que iriam se desencadear no mundo Ocidental, a exemplo da Revolução americana  (Independência dos Estados Unidos), da Revolução Francesa e das Revoluções liberais e nacionalistas do século XIX, como os movimentos de unificação da Itália e da Alemanha.

Os maçons, na verdade, nunca contestaram dogmas constantes das sagradas escrituras, pelo contrário, respeitaram todos (ou quase), mas nunca admitiram os proselitismos e as manipulações de uma parte do clero sobre os fiéis no sentido de tirar vantagens.

Naqueles tempos a Igreja (século XVIII), apesar de muito contestada, mantinha a sua supremacia, pois tinha se associado aos estados nacionais (absolutistas) através do chamado "princípio do padroado" em que o clero católico tinha se submetido ao poder político em troca de certos privilégios como empregos públicos e isenção fiscal, ao mesmo tempo em que garantia a exclusividade do catolicismo, especialmente, diante do perigo do avanço do protestantismo.

Pelo princípio do padroado o clero era submetido ao poder do rei (de cada país católico), o que pode parecer, a princípio , uma solução para a questão da exploração dos fieis ; porém o fato do rei, que possuía poderes ilimitados (absolutos), ter o clero sob sua autoridade, dava ao Estado um excessivo exercício de poder, extrapolando os limites do arbítrio. A Igreja compactuava com o chamado "direito divino de governar", pelo qual os reis se auto-declaravam detentores de poderes cedidos pelo próprio Criador. As organizações secretas, inclusive as ordens religiosas que surgiram dentro da própria Igreja, fizeram permanente oposição aos abusos, o que atingia, dessa forma, os interesses das duas camadas sociais (clero e nobreza) que mais se beneficiavam do sistema político-religioso vigente.

Foi nesse contexto que a burguesia européia forjou, na Inglaterra e na França, um movimento de contestação que viria se transformar no grande evento ideológico, filosófico, de bases revolucionárias, do século XVIII, ao qual se concebeu chamar de lluminismo, porque esses ideais constituíam a verdadeira luz da justiça que a sociedade clamava.

Foi exatamente no século XVIII que se formalizaram a Grande Loja de Londres e a Franco-Maçonaria, consideradas por muitos historiadores como o verdadeiro nascimento da Maçonaria, no formato que entendemos hoje. Assim, vamos encontrar nessa época as primeiras revoluções articuladas (e vitoriosas) no interior dos templos maçônicos, a exemplo da independência dos Estados Unidos (Revolução Americana) na qual, entre os 56 heróis que assinaram a declaração de independência, 50 deles eram maçons, incluindo George Washington (venerável da Loja Alexandria), Benjamin Franklin, Thomas Jefferson e James Madison.

No que se refere a França, a segunda metade do século XVIII foi marcada pela explosão daquela que foi considerada

como a "maior revolução" (na acepção da palavra) de toda a história da humanidade, pelos efeitos que conseguiu 

produzir nas estruturas econômicas, sociais, políticas, religiosas e culturais do mundo ocidental.

Não é correto afirmar que a Revolução Francesa foi articulada no interior dos templos maçônicos, inclusive porque

o estado absolutista francês, que prevalecia, exercido pela dinastia dos bourbons, era tão fechado em torno

dos interesses da nobreza e do clero que era praticamente impossível para qualquer instituição 

reunir (ainda que secretamente) sem ser alcançada pelo braço implacável do poder absolutista.

Diz a lenda que existia na França, naquela época, um instituição secreta (que podia ser uma maçonaria) chamada de "Ordem dos Jugurtas" que se reunia nos lugares mais inusitados para fugir da perseguição, inclusive nos altos galhos das árvores e nas cavernas. A essa instituição podem ter pertencido homens como Voltaire, Montesquieu, Diderot e Rousseau, hoje considerados como alguns dos principais teóricos de todos os movimentos revolucionários que a idade contemporânea assistiu, além de alguns personagens da própria Revolução Francesa como Rochambeau e Lafayette.

A Revolução Francesa, em certos momentos, foi implacável com o clero católico. O filósofo e enciclopedista Diderot que se declarava inimigo mortal do "velho regime" deixou uma frase que traduz muito bem esse espírito: "O mundo só será feliz quando o último rei (protegido pelo clero) for enforcado nas tripas do último padre (protegido pelo rei)".

Durante a Revolução Francesa propriamente dita, uma das primeiras medidas foi submeter ao clero católico ao poder do estado, através de um documento denominado de "constituição civil do clero pelo qual os padres, bispos, arcebispos, cônegos, abades, enfim, todos, tornavam-se funcionários públicos, portanto 100% subordinados aos governantes.

Se não bastasse isso, a segunda constituição revolucionária (1793), promulgada durante o período dominado pelos jacobinos (grupo político radical da revolução), extinguiu o cristianismo e criou uma religião denominada de "racionalismo" (culto da razão), transformando a Igreja de Notredame (uma das mais famosas do mundo) num lugar de adoração de uma cantora lírica que representava a "deusa da razão'. Um momento de descontrole revolucionário!

Por outro lado, milhares de clérigos foram presos e muitos deles trucidados pela insanidade raivosa de grupos de revolucionários que desejaram fazer "justiça com as próprias mãos". Em nenhum desses momentos violentos podemos atribuir qualquer responsabilidade à Maçonaria, mas não se pode negar que muitos desses personagens da revolução tinham total identidade com os ideais maçônicos.

Depois de Golpe de 1799 (Golpe do 18 do Brumário), que levou Napoleão Bonaparte ao poder, primeiro como cônsul e depois como imperador, o clero voltou a sentir o peso da nova concepção que a revolução havia imposto a respeito da Igreja. Durante a própria solenidade de sua coroação, Napoleão (considerado por muitos historiadores como um "iniciado"), humilhou o Papa Pio VII, ao interromper sua oração e ao tomar-lhe das mãos a coroa de imperador para, com arrogância, colocar em sua própria cabeça. Durante seu império, Napoleão (Imagem ao lado) obrigou o mesmo papa Pio VII a reconhecer muitas de suas arbitrariedades, inclusive a invasão e a dominação de outros países, levando o pontífice aos limites do imponderável. Como Pio VII negou-se a continuar lhe obedecendo, Napoleão, mandou prendê-lo e determinou a ocupação dos territórios pontifícios (terras pertencentes à Igreja - das quais, hoje resta somente o Vaticano).

No século XIX por ocasião do processo nacionalista de unificação da Itália, a Maçonaria esteve presente e atuante, através de um grupo numeroso de poderoso de maçons que se reuniam no interior das minas de carvão para articular estratégias de combate aos dominadores austríacos. Pelo fato de se reunirem nas minas de carvão, essa instituição maçônica ficou conhecida como Carbonária. Até aí, nenhum fato contrário à Igreja.

Porém, em 1871 os heróis italianos consumaram a libertação e a unificação do país e incluíram o processo de formação de novo reino (Reino da Itália), procedendo, inclusive, a anexação de todos os territórios pontifícios (grandes territórios pertencentes à Igreja), subordinando, inclusive o Papa (na época Pio IX) à autoridade do rei italiano (Vitor Emanuel I). E o que tem a Maçonaria a ver com isso? Ora, um dos mais renomados heróis desse grande feito foi Giusepe Garibaldi que, segundo consta, era membro ativo de nossa sublime instituição, sem contar o papel inicial da Carbonária no formação global do processo de unificação. Todos esses episódios deixaram marcas indeléveis nas relações entre a Igreja Católica e a Maçonaria, porque mesmo não sendo a Maçonaria oficialmente o único responsável, não resta dúvida de que em todos eles (episódios históricos) os seus ideais libertários, de alguma forma, estiveram presentes, mesmo se reconhecendo que abusos foram combatidos com outros abusos.

Exceto os Estados Unidos, todos os demais países da América que se tornaram livres do jugo colonialista dos países europeus e tomaram o catolicismo como religião oficial, por ocasião da independência, mas subordinaram o clero católico à autoridade política. Não esquecendo que à frente da maioria das revoluções que libertaram esses países destacam-se homens reconhecidos historicamente como maçons, a exemplo de Simón Bolívar e San Martin. Resta a cada um de nós maçons refletir e tirar, livremente, as nossas próprias conclusões. 

Autor do texto: Matias Ferreira do Nascimento.

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