De acordo com a autora da obra: História do Tarô, Isabelle Nadolny, fabricar cartas era um ofício que gozava de uma consideração mediana. Em 1581, um édito de Henrique III instituíra a constituição dos ofícios em corporações e comunidades, para que os impostos fossem cobrados de maneira mais equilibrada. Os ofícios eram divididos em cinco categorias, dos melhores aos mais medíocres. No terceiro nível, onde "se encontram os ofícios medíocres", havia o "fabricante de cartas e tarôs", acompanhado pelo sapateiro, pelo charcuteiro e pelo alfaiate. Nessa categoria também estavam o tocador de instrumentos, o fabricante de papéis, o pintor e talhador de imagens e o escultor. Vale notar de passagem que esses ofícios artísticos, pelos quais hoje se tem tanta consideração - pintores, escultores e músicos -, na época eram colocados no mesmo patamar dos artesãos que fabricavam roupas ou alimentos.
De acordo com a autora, o ofício do fabricante de cartas era rigorosamente regulamentado e onerado com pesados impostos. A partir do século XVII, esses profissionais eram explorados; os coletores de impostos (fermiers) enviavam seus inúmeros encarregados aos estabelecimentos comerciais dos fabricantes de cartas para cobrarem os tributos sobre o menor baralho produzido ou para verificarem a conformidade dos moldes. Em 1701, para obrigá-los a pagar o novo imposto de 18 denários por jogo, os funcionários dos coletores de impostos quebraram todos os antigos moldes de cartas e exigiram que os artesãos fossem até seu escritório para buscar as impressões dos novos moldes que eles haviam mandado confeccionar.
Há uma ata que reporta uma visita em 18 de maio de 1745 à viúva de Pierre Madenié, comerciante de cartas na rua Notre-Dame: 103 "Pela injunção que lhe foi feita, a viúva Madenié apresentou aos visitantes três moldes gravados [contendo reis, damas e valetes]. Mais dez moldes ou estampas gravadas de figuras estrangeiras, que servem para imprimir as cartas de tarô, a saber: seis estampas próprias para a nomeada impressão e a sétima para imprimir o baralho de tarô". A ata informa a apreensão das três primeiras estampas (portanto, não as do tarô) para serem destruídas e substituídas pelos novos jogos em vigor segundo os moldes do gestor (régisseur). O inventário menciona 9.852 baralhos. No que se refere aos fabricantes de cartas, os documentos desse tipo são numerosos: atas, factums, 104 estatutos, contratos e requerimentos que revelam uma profissão penosa e ingrata, sempre em luta com as dificuldades administrativas.
A jornada de trabalho de um artesão fabricante de cartas começava às cinco horas da manhã e durava catorze horas, em troca de um salário de 18 a vinte sous por dia. Apesar dessas remunerações modestas, nem sempre os mestres empregadores conseguiam obter um lucro líquido igual ao salário de seus operários. As pressões sofridas eram exercidas pelo Estado, mas também na própria profissão. Para um fabricante de cartas, o acesso ao grau de mestre, já rigorosamente regulamentado desde 1594, tornou-se cada vez mais restritivo: no século XVIII, apenas os filhos dos fabricantes de cartas podiam tornar-se mestres.
Além do trabalho e dos impostos, sabe-se que esses profissionais formavam confrarias, ou seja, associações de mestres fabricantes de cartas e companheiros (compagnons)" com um objetivo religioso. Por exemplo, a confraria dos fabricantes de cartas parisienses, estabelecida na igreja do Santo Sepulcro, era constituída sob a proteção dos "Reis Magos", pois sua festa era no dia da Epifania. Todo novo companheiro que vinha do campo tinha de pagar uma taxa de admissão de dez libras "como contribuição à caixa de esmolas da confraria" e apresentar um certificado e um recibo de quitação. Na falta do pagamento (que o recém-chegado podia realizar durante o período de trabalho a serviço do mestre que o acolhera), ele seria demitido. Fala-se muito em "iniciações" para esses fabricantes de cartas: aprendizes, companheiros, mestres, essas denominações certamente levam a pensar na franco-maçonaria.
Contudo, segundo a autora, a presença da maçonaria não foi atestada na França antes de 1725. Portanto, é arriscado fazê-la aparecer entre os fabricantes de cartas antes dessa data. E ainda que as lojas maçônicas "operantes" tivessem existido na França antes do aparecimento da franco-maçonaria "especulativa" (sua forma contemporânea) em 1725, não há vestígio de nenhuma prática iniciática nos arquivos relativos aos fabricantes de cartas. Há também que se considerar a vida e os costumes dos franco-maçons no século XVIII. As lojas maçônicas eram constituídas pelas elites sociais francesas. É pouco provável que as lojas que reuniam Voltaire, Benjamin Franklin ou o duque de Orleans acolhessem em seu meio modestos artesãos onerados pelos impostos, que trabalhavam catorze horas por dia e, em grande parte, eram iletrados. Se os franco-maçons adotaram vocábulos das corporações de ofício, entre os quais o de "construtor", talvez não tenham incorporado seus membros. Em todo caso, não no século XVIII.
Na França de Luís XVI (1774-1791) uma época, também chamada de Século das Luzes, as mentes em ebulição desenvolveram duas maneiras de conceber o mundo. De um lado, os enciclopedistas, com Diderot e d'Alembert, tentam racionalizar o conhecimento A Encyclopédie, ou Dictionnaire raisonné des sciences, des arts et des métiers, publicada de 1751 a 1772, realiza um estudo sistemático dos diferentes ramos do saber, das técnicas e das artes reconhecidas na época. Desse modo, vimos que nela os tarôs são definidos como "tipos de cartas de jogo, utilizadas na Espanha, na Alemanha e em outros países [...] elas apresentam copas, denários, espadas e bastões". De outro lado, esse Século das Luzes é apaixonado pelo irracional e pelo ocultismo em todos os seus aspectos. As sociedades ocultistas tiveram um desenvolvimento sem equivalente na história. A autora lembra que a Inquisição já não exercia repressão na França, sobretudo porque esses movimentos envolviam as elites sociais. Mesmo a Igreja já não impunha muito seus mandamentos nessa sociedade abastada, que buscava uma vida tranquila e o entretenimento no contato com a filosofia, o bom gosto, a literatura e as artes plásticas. O século XVIIl é o século da busca do saber, mas também do prazer e da felicidade.
Nesse período, a franco-maçonaria se tornou um fenômeno da moda. Vinda da Escócia (onde dignitários ricos a teriam criado no século XVII), 135 depois da Inglaterra (onde a pri- meira Grande Loja data de 1717), sua presença, como já evocado, foi comprovada pela primeira vez na França em 1725. O discurso do cavaleiro Andrew Michael Ramsay, em 1736, lançou as bases da franco-maçonaria francesa. Em seguida, esse início discreto deu lugar a um crescimento no número de lojas, movimentos, ritos e textos. Em quinze anos, assistiu-se à criação de mais de 107 lojas. Textos sobre rituais já haviam sido publicados no século XVIII. 136 Esses diversos movimentos têm um elemento invariável: a iniciação. Retomando a linguagem das corporações de ofício nesse caso, a dos construtores -, os aprendizes tornavam-se companheiros. O grau de mestre só apareceu em Londres em 1725 e foi difundido na França a partir de 1730. Aparentemente, esses grupos maçônicos na França cultivavam uma nova forma de sociabilidade que não excluía os prazeres da mesa e da boa companhia: as reuniões entre irmãos costumavam ser precedidas por um banquete. Para um documento maçônico da época, tratava-se de "uma instituição que inicialmente tinha como único objetivo permitir que seus associados desfrutassem das benesses de uma sociedade seleta, cujos prazeres tornavam-se mais pitorescos graças a um leve mistério".
A título de curiosidade, a imagem acima, a carta representando a Alta Sacerdotisa, está representada uma jovem sentada em um trono entre duas colunas. No baralho Rider-Waite, a coluna à esquerda da Alta Sacerdotisa tem inscrita a letra 'J', e à direita, 'B', aludindo às colunas que compunham o pórtico do Templo do Rei Salomão. Uma das Três Grandes Luzes da Maçonaria, o Livro Sagrado da Lei, repousa aberto em seu colo, e dele flui um riacho borbulhante que irriga os demais Arcanos Maiores. A carta da Alta Sacerdotisa corresponde à letra hebraica 'Gimel', que significa 'Corda', sugerindo maçonicamente a corda ou cabo que prende o candidato à iniciação. Além disso, o equivalente latino do hebraico Gimel é a letra 'G', indicativa da mesma letra que está suspensa sobre a cabeça do Venerável Mestre, no lado leste da Loja.
Referência:
História do tarô: um estudo completo sobre suas origens, iconografia e simbolismo/ Isabelle Nadolny; tradução Luciana Soares da Silva. - 1. ed. - São Paulo: Editora Pensamento, 2022.
https://www.universalfreemasonry.org/en/article/a-study-of-the-major-arcana-in-the-light-of-freemasonry

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