A tradição intelectual de conceber e apresentar uma peça de arquitetura na Maçonaria encontra seu alicerce no ato de erguer uma construção intelectual edificante que beneficie toda a coletividade. Para que o trabalho desempenhe seu real papel pedagógico e fraternal, a escrita deve transcender a vaidade e a simples erudição estéril, buscando na comunicação o verdadeiro fluxo da vida. A comunicação funciona, assim, como a argamassa divina que une os maçons na busca constante por edificarem a si mesmos e aos seus irmãos. Escrever uma peça exige do autor, seja maçom ou não, a profunda responsabilidade moral sobre aquilo que o seu traço projeta nas pranchas da Loja, pois o objetivo supremo da arte de redigir é o aprimoramento espiritual.
Comunicar-se e escrever são atos com consequências morais e espirituais. Na obra “Horizontes da mente”, o autor espiritual, Miramez, afirma que o intercâmbio é a base do progresso, entendendo a comunicação como a própria troca de valores que sustenta a vida em todos os seus níveis. Para o autor, ela é "a argamassa divina", algo que une não apenas pessoas, mas também a alma ao corpo e o corpo a seus órgãos. Daí decorre uma lógica de reciprocidade: quem fala bem aos semelhantes, desejando-lhes paz e saúde, estimula primeiro a si mesmo, e as leis divinas asseguram que somos nós os mais beneficiados, quando beneficiamos.
Essa visão ganha praticidade na obra "Diálogo dos vivos", obra de autoria de Francisco Cândido Xavier, J. Herculano Pires e Espíritos diversos, onde desloca o foco da fala para a palavra escrita. A pergunta inicial já questiona a vaidade literária: escrever dignamente seria apenas alcançar as alturas literárias? A resposta é negativa, pois o que importa, acima de tudo, é escrever edificando. Os autores reconhecem o valor das obras eruditas, mas lembram que milhões de pessoas aguardam por ideias que lhes sirvam de consolo, orientação e esperança, funcionando como "salva-vidas aos náufragos da Terra". Assim, o ato de escrever deixa de ser um exercício estético e passa a ser uma forma de socorro.
A responsabilidade do escritor é, então, formulada em termos de consciência e finalidade. É preciso saber o que escrevemos, como escrevemos, para que e para quem escrevemos. A proposta é que o sentimento gera a ideia, a ideia dá forma ao verbo, o verbo estabelece a ação e a ação cria o destino. Disso se segue que tudo o que se escreve hoje retornará como reflexo "nas telas do amanhã". A comunicação, portanto, não é neutra, pois ela molda quem a emite.
Emmanuel, na obra “Nós”, aprofunda esse alerta ao tratar do mau uso da escrita. Ele questiona quantos recorrem a ela por veicularem imposições e difundir enganos, atendendo a venenosos caprichos individuais. Quantas vezes já usamos o jornal ou o livro para impor nossa interpretação pessoal. Por isso, o autor afirma que quem escreve deve guardar-se todos os dias, numa vigilância constante contra as leviandades do espírito.
Emmanuel cita:
_ “Quem escreve precisará lutar contra numerosas leviandades que ameaçam o espírito. É indispensável guardar-se todos os dias. E, nessa vigilância justa, será razoável lembrar a posição de Jesus que não deixou livros ou pergaminhos, legando-nos, apesar disso, os tesouros da vida imperecível. Imposta considerar, no entanto, que o Mestre Divino escreveu na Terra. Nunca encontraste o simbolismo profundo desse gesto de Cristo?”
Emmanuel ainda assevera que todos inscrevem algo no mundo: o agricultor, ao traçar leiras e plantar árvores, e o construtor, ao erguer edifícios e universidades. Nesse sentido, a vida inteira é uma escrita diária, feita pelas mãos e atitudes com as tintas luminosas ou sombrias do coração. Com isso, a Terra se torna o grande livro confiado por Deus, e o conselho final é não manchá-lo, mas auxiliar, perdoar, trabalhar, amar e servir.
Vimos então nesses ensinamentos o estabelecimento do princípio de que comunicar é trocar, e que o bem emitido retorna a quem o emite. Aplicar esse princípio à escrita, exigindo que ela seja edificante e consciente de seu propósito. Se tudo o que fazemos é uma forma de escrita, cada gesto é uma comunicação com consequências. Assim, palavras e atos são sementes, e a responsabilidade por elas é inseparável de quem as lança.
Referências:
EMMANUEL (Espírito). Diálogo com os vivos. Psicografado por Francisco Cândido Xavier. 12. ed. Catanduva: Boa Nova, 2020.
MIRAMEZ (Espírito). Horizontes da mente. Psicografado por João Nunes Maia. 1. ed. Fonte Viva, 2026.
XAVIER, Francisco Cândido; EMMANUEL (Espírito). Nós. 1. ed. Brasília: FEB Editora / CEU, 2021.

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